
"Uma expressão fisionômica feliz e inteligente é o fim da cultura, e eis aí um sucesso suficiente. Porque mostra que o fim da Natureza e da sabedoria é alcançado" (Emerson em A conduta da Vida).
Da vida humana, a duração é um ponto; a substância, fluída; a sensação, apagada; a composição de todo o corpo, putrescível; a alma, inquieta; a sorte, imprevisível; a fama, incerta.
Em suma, tudo que é do corpo é um rio; o que é da alma, sonho e névoa; a vida, uma guerra, um desterro; a fama póstuma, olvido.
O que, pois, pode servir-nos de guia? Só e única a Filosofia. Consiste ela em guardar o nume interior livre de insolências e danos, mais forte que os prazeres e mágoas, nada fazendo com leviandade, engano ou dissimulação, nem precisando que outrem faça ou deixe de fazer nada, acatando, ainda, os eventos e quinhões que lhe tocam, como vindos da mesma origem qualquer donde vem ele próprio; sobretudo, aguardando de boa mente a morte, qual mera dissolução dos elementos de que se compõe cada um dos viventes (Marco Aurélio, Meditações, col. pensadores, p. 269)
"Seguidamente faria notar a utilidadade desta Filosofia e mostraria que, uma vez que se estende a tudo o que o espírito humano consegue saber, devemos acreditar que apenas ela nos distingue dos mais selvagens e bárbaros, e que uma nação é tanto mais civilizada e polida quanto melhor os seus homens filosofarem: e assim, o maior bem de um Estado é possuir verdadeiros filósofos. Além disso, para cada homem em particular é útil não só viver com os que se aplicam a tal estudo, mas também é incomparavelmente melhor que cada qual se aplique a ele, pois vale muito mais servimo-nos dos nossos próprios olhos para nos conduzirmos e desfrutarmos, por seu intermédio, da beleza das cores e da luz, do que mantê-los fechados e dispor apenas de si própria para se conduzir. Ora, viver sem filosofar é ter os olhos fechados e nunca procurar abri-los; e o prazer de ver todas as coisas que a nossa vista descobre não é nada coomparado com a satisfação que advém do conhecimento daquilo que se encontra pela Filosofia" (DESCARTES, R. Princípios de Filosofia. Lisboa: Edições 70, p. 16).
Em um espírito ardente encontramos o animal de rapina disfarçado; não poderíamos defender-nos demasiado das garras de um profeta... Quando elevar a voz, seja em nome do céu, da cidade ou de outros pretextos, afaste-se dele: sátiro de nossa solidão, não perdoa que vivamos aquém de suas verdades e de seus arrebatamentos; quer fazer-nos compartilhar de sua histeria, de seu bem, impô-lo a nós e desfigurar-nos. Um ser possuído por uma crença e que não procurasse comunicá-la aos outros seria um fenômeno estranho à terra, onde a obsessão da salvação torna a vida irrespirável. Olhe à sua volta: por toda parte larvas que pregam; cada instituição traduz uma missão; as prefeituras têm seu absoluto como os templos; a administração, com seus regulamentos — metafísica para uso de macacos... Todos se esforçam por remediar a vida de todos; aspiram a isso até os mendigos, inclusive os incuráveis: as calçadas do mundo e os hospitais transbordam de reformadores. A ânsia de tornar-se fonte de acontecimentos atua sobre cada um como uma desordem mental ou uma maldição intencional. A sociedade é um inferno de salvadores! O que Diógenes buscava com sua lanterna era um indiferente.
CIORAN. Breviário de decomposição. Rio de Janeiro: Rocco, 1989
"entendam-se bem essas palavras e se verá que expõem de maneira excelente as verdadeiras fronteiras e limites em que se encerra e circunscreve o conhecimento humano; e isso ainda sem tanta constrição ou restrição, mas que ele pode compreender toda a natureza universal das coisas. Pois essas limitações são três. A primeira, que não situemos nossa felicidade no conhecimento a ponto de esquecer nossa mortalidade. A segunda, que apliquemos nosso conhecimento de modo que nos dê repouso e contentamento, e não inquietude ou insatisfação. A terceira, que não tenhamos a presunção de, pela contemplação da natureza, alcançar os mistérios de Deus" (p.22).
"Tenho a intenção de viver tranqüilamente, sem me aborrecer, durante o tempo que me resta, e não desejo quebrar a cabeça com o que quer que seja, nem mesmo com a ciência que muito prezo.
Não busco nos livros senão o prazer de um honesto passatempo; e nesse estudo não me prendo senão ao que possa desenvolver em mim o conhecimento de mim mesmo e me auxilie a viver e morrer bem, "essa meta para onde deve correr o meu corcel".
(Montaigne, Ensaios, Capítulo X, Dos Livros)
"Rompem-se as coisas. O centro não mais agüenta/Mera anarquia anda solta sobre o mundo/A maré sangrenta não é contida/E por toda parte afogada a cerimônia da inocência/Privados os melhores de qualquer convicção/E cheios os piores da apaixonada intensidade" (William B. Yeats).
Escrevi esse texto dias atrás. Agora ele tá meio caduco, pois o Grêmio voltou a jogar. Talvez a parte etérea justifique a publicação.
Aproveitei um desses últimos domingos nublados para fugir de mais uma das lamentáveis apresentações do Grêmio. Reconheço agora que minha decisão foi das mais sábias. Evitei uma decepção e consegui ver a bela biografia do médico espírita Bezerra de Menezes que está em cartaz no Cine Santa Cruz.
Não tenho preconceito nenhum contra qualquer religião. Leio textos religiosos de várias tradições sempre com muito proveito e felicidade da alma. Gosto mais de algumas religiões, aquelas que estão mais próximas das minhas inclinações. Mas não creio que haja algo como uma “religião verdadeira”. Não creio que haja tal coisa, pois me parece haver uma comunhão de princípios básicos entre as diferentes religiões do mundo. Bezerra de Menezes manifesta, bem no início do filme, dois desses princípios: a natureza humana como espírito e a existência de Deus (o ser supremo). O primeiro princípio é admitido por qualquer credo não materialista, qualquer credo que admita a sobrevivência da alma após a morte. A diferença crucial é que muitas religiões, especialmente orientais e o espiritismo, acreditam que podemos renascer como corpo, enquanto outras negam tal possibilidade.
Já escrevi essa frase várias vezes: acredito que a vida seja um processo de aperfeiçoamento moral e espiritual. Não sei quantas vezes nos será dada a oportunidade de aprimorar nosso ser...aprimorar no sentido mais comum do termo. Talvez seja uma apenas, como é comum pensar na maioria das religiões do Ocidente. Se for apenas uma, temos que aproveitá-la maximamente e viver na direção dos melhores propósitos que uma vida humana permite.
Bezerra de Menezes me parece ter mostrado, independentemente de suas crenças particulares, o que é um bom direcionamento, um bom caminho de vida. E esse foi justamente o elemento que mais me chamou a atenção no figura desse brilhante médico cearense. Não foi saber que ele fez certas coisas por ser espírita ou católico, foi saber que ele não viveu para sua glória pessoal ou para as convenções da sociedade carioca, mas viveu pela grandeza de seus ideais pátrios, ideais abolicionistas e do fim dos maus-tratos aos irmãos negros, viveu para cultivar a dedicação aos outros e o espírito da caridade. Essa é a lição mais tocante que a vida de um crente, de um homem piedoso, pode ofertar.
Leia no Diario Gauche
Com o sistema financeiro em crise, a teoria marxista ganha novo fôlego. As vendas de O Capital, a obra maior de Karl Marx, estão “aumentando visivelmente”, disse Jörn Schütrumpf da editora Karl-Dietz-Verlag. A informação é da Agência France Press.
“Marx está de novo na moda e a procura das suas obras, em alta”, explicou Schütrumpf ao jornal Neue Ruhr Neue Rheinzeitung.
Toda profissão tem cacoetes lingüísticos. O geólogo brasileiro denomina os campos submarinos de petróleo existentes abaixo de um enorme e espesso lençol de sal de pré-sal. O geólogo ordena o mundo de baixo para cima. O sal dificulta e encarece a extração, porém preserva um óleo leve e de ótima qualidade.
Fortes evidências levam a crer que há 130 milhões de anos começou o desquite entre África e América do Sul. No meio, surgiu um lago que, crescendo, dá origem ao Atlântico Sul. O material orgânico foi sepultado debaixo do sal; posteriormente, outros elementos se depositaram. A combinação de temperatura e pressão converteu a matéria orgânica em petróleo. Movimentos tectônicos deslocaram o sal; parte do petróleo migrou para cima das "janelas" de sal. A Petrobras localizou campos submarinos nestas janelas: Namorado, Marlin, Roncador e toda uma peixaria permitiram a auto-suficiência deste combustível. O óleo dessas jazidas não é o melhor - é pesado - porém é nosso; está em nossa fronteira marítima, pertence à Petrobras, e o Brasil é líder em tecnologia e ambições em águas profundas.
A Petrobras foi em frente. Perfurou ao longo do mar, desde Espírito Santo até a Bacia de Santos, em busca do pré-sal. Tudo leva a crer que Existam campos no mar em uma área de até 800 quilômetros de extensão por 200 quilômetros de largura. As estimativas oscilam entre 30 e 50 bilhões de barris no pré-sal - não é um delírio nacional, esta é a avaliação do Credit Suisse.
Hoje temos 14 bilhões de barris provados. Com Tupi, Carioca, Júpiter e seus "compadres", chegaríamos às reservas atuais da Rússia e da Venezuela. O óleo do pré-sal é leve. O Brasil pode confiar nos geólogos, cientistas, engenheiros e tecnólogos que desenvolveremos a tecnologia para estes campos muito profundos e com espessas camadas de sal. Ao Eldorado Verde da Amazônia, descobrimos um Azul, no pré-sal; um novo Eldorado pelo brasileiro e para o brasileiro. Este é o sonho. Pode-se converter em um pesadelo.
Os EUA consomem 25% do petróleo do mundo. O grande poluidor bebe, todos os anos, sete bilhões de barris. Tem reservas pequenas, apenas para quatro anos. Por isto, tem tropas na Arábia Saudita (260 bilhões de barris de reservas), e frotas navais no Oceano Índico; estimulou o conflito latente entre sunitas e xiitas, promoveu Saddam Hussein e deu fôlego a Bin Laden. Com o primeiro, alimentou o ódio ao Irã (100 bilhões de barris); com o segundo, sustentou a rebelião dos afegãos contra a URSS. Após o 11 de setembro, destruiu os talibãs e, desde então, acusou o Iraque (100 bilhões de barris) de dispor de armas nucleares. Destruído Saddam, não se descobriu nenhum armamento não convencional. Transferiu, imediatamente, para o Irã a acusação de estar se nuclearizando. Os EUA mergulharam de ponta-cabeça no Oriente Médio, pois têm sede de petróleo - aliás, a China e a Índia também.
Até o pré-sal brasileiro, o Novo Mundo não poderia saciar os EUA; o México já foi depredado (tinha 52 bilhões de reservas e hoje está com 17). O Canadá tem muita areia betuminosa (custos extremamente elevados de extração). A Venezuela tem reservas insuficientes para a sede norte-americana. Alguns países ficaram sem petróleo: a Indonésia exportou, participou da Opep e vendeu seu óleo a US$ 3 o barril, hoje importa aUS$100 o barril. O Reino Unido não é mais exportador de petróleo no Mar do Norte; bebeu e vendeu demais. Este é o pano de fundo de um possível pesadelo geopolítico. Não interessa ao Brasil que o Atlântico Sul se converta num Oriente Médio.
A primeira pergunta que ocorre é: o petróleo do pré-sal é nosso? Logo depois: até quando? O neoliberalismo já promoveu nove rodadas de leilões. A ANP - instituição que no passado seria denominada de "entreguista" - pretendeu acelerar uma nova rodada nos blocos do pré-sal. Com clarividência, o presidente Lula suspendeu a rodada e solicitou à ministra-chefe da Casa Civil que estudasse uma nova legislação de regulamentação da economia do petróleo. Creio que Lula anteviu um possível "Iraque" em nosso território. O presidente sabe que a Petrobras pode, técnica e financeiramente, desenvolver Tupi e outros campos do pré-sal. Sabe que não se brinca com soberania na "Amazônia azul". Nossa Marinha de Guerra precisa do submarino nuclear; nossa Aeronáutica precisa de mísseis e da Base de Alcântara, porém quem garante que não seremos acusados de belicismo?
Conheço a ministra Dilma desde os tempos da Unicamp. Sei que é nacionalista e bem preparada; ela sabe que o preço do barril irá subir tendencialmente. É uma boa "aplicação financeira" manter petróleo conhecido e cubado como uma reserva estratégica; rende mais que os Títulos de Dívida Pública norte-americanos. Um fundo soberano, alimentado com uma parcela das reservas cambiais de nosso Banco Central, poderia subscrever ações e financiar a Petrobras. É mais estratégica esta "aplicação" do que apoiar o Tesouro dos EUA. Dilma sabe que a China fura poços e os mantém lacrados, preferindo beber petróleo importado em troca de suas exportações. Certamente, a regulamentação não será elevar royalties e contribuições especiais sobre o petróleo extraído do pré-sal por companhias estrangeiras.
A premissa maior é reassumir a Petrobras como empresa estratégica para o futuro desenvolvimento brasileiro e escudo protetor de uma geopolítica potencialmente ameaçadora. Para tal, é necessário retirar da companhia sua medíocre missão atual: "honrar seus acionistas". Aliás, o Dr. Meirelles, com o desejado fundo soberano, poderia converter o Banco Central em "acionista", recomprando as ações que os governos liberalizantes venderam para estrangeiros.
A diretoria da Petrobras, em vez de saber a cotação da ação em Wall Street, deveria estar articulada com o presidente da República, expondo ao Brasil o modo de manter o Eldorado em nossas mãos.
Artigo de Carlos Lessa, professor-titular de economia brasileira da UFRJ, publicado no jornal Valor.
No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela - silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.
Paulo Leminski
Contra a política da unidimensionalidade identitária, Sen defende o poder
das identidades competitivas. "Posso ser ao mesmo tempo", diz, no que é sem
dúvida uma auto-descrição, "asiático, cidadão indiano, bengali com ancestrais de
Bangladesh, residente americano ou britânico, economista, filósofo amador,
escritor, sanscritista, alguém que crê fortemente no secularismo e na
democracia, homem, feminista, heterossexual, defensor dos direitos gays e
lésbicos, praticante de um estilo de vida não-religioso, de background hindu,
não-brâmane, descrente em vida depois da vida (e, caso interrogado, descrente em
vida antes da vida também)". E complementa: "Isso é apenas uma pequena amostra
das diversas categorias às quais posso simultaneamente pertencer".
Não é possível quantificar o quanto a sociedade e a cultura devem à boemia.
Em todas as eras, em todos os países bem sucedidos, tem sido importante que ao
menos uma parte pequena da paisagem urbana não esteja dominada por banqueiros,
corretores, franquias, restaurantes genéricos, e terminais ferroviários. Esse
pequeno distrito deve, ao invés, ser a reserva de -- sem ordem especial --
insones e restaurantes e bares que nunca fecham; bibliófilos e as pequenas lojas
e bodegas que os alimentam; alcoólatras e viciados e desviantes e os
proprietários que os compreendem; aspirantes a pintores e músicos e os estúdios
modestos que podem acomodá-los; damas de virtude fácil e os homens que as
requerem; desajustados e poetas de praias estrangeiras e exílios de remotos e
cruéis ditadores. Embora não deva haver desvantagem em ser jovem em tal
distrito, a atmosfera não deve de modo algum desencorajar o veterano.Christopher Hitchens, em 'last call, bohemia', um artigo para a vanity fair sobre a importância dos bairros boêmios para as cidades que prezam pela vida cultural/espiritual/intelectual/mental