sábado, 18 de dezembro de 2010

Eterno Retorno do Mesmo


Os anos são contados em linha reta ou círculos? Os meus já foram contados em linha reta. Antigamente eu corria, corria e queria chegar antes no final do caminho; queria saber o que encontraria "lá", como se o melhor e único prazer do autor fosse contemplar a obra pronta. Não experimentava a fortuna sutil de ser um caminhante que desfruta cada manhã, cada pedaço da grama verde pisada, cada folha do livro emprestado que li sozinho ou embalado em algum diálogo amigo. Mas meu tempo hoje dança noutro ritmo.   A vida anda cheia de retornos, de retomadas. O cenário nem sempre é o mesmo, muda uma ou outra figura. O palco e os atores são os mesmos. Ontem mesmo estive, por uma hora e depois de uns 12 anos, conversando com o Manuel, morador do bloco dos funcionários, no Campus da UFSM. Morei lá por perto quase uma década e ver aquelas paredes, rebocos e as ervas velhas, plantadas entre lajes de cimento, brotando nas calçadas, me fez enxergar o quanto eu voltei.
Manuel era o barbeiro dos moradores da Casa do Estudante-  CEU II (A CEU I fica no Centro de Santa Maria). Ganhava a vida cortando cabelo e vendendo "nega maluca" feita pela sua esposa, a Catarina. Nos tempos mais difíceis chegou a trocar um liquinho de gás por 50 cortes de cabelo. "Baitá negócio! Eu precisava do liquinho e fulano precisava cortar os cabelos", me disse. Precisava, precisão! Era assim, afinal, a vida que levávamos: matando cachorro a grito e resistindo ao mar revolto, um agarrado no ombro do outro. Sobrevivemos...com a alma intacta ou, ao menos, aparentemente lúcida. E ver o passado que foi e o presente que somos é como ver o tempo rodar, rodar, carregando nossa alma dentro dele, feito redemoinho. O eterno retorno do Nietzsche. Eis aqui a célebre passagem:

O maior dos pesos.- E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: "Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem- e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse insante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente- e você com ela, partícula de poeira!"- Você não se prostaria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: "Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!". Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez;  a questão em tudo e em cada coisa, "Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?", pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela? (Gaia Ciência, parágrafo 341)

Retornar. Repetir. O eterno retorno de Nietzsche é bem mais trágico que o meu. Estou simplesmente reencontrando meu passado. E a sensação não é ruim, embora haja um curioso intervalo entre viver e reviver, um intervalo que torna vaga a própria vida. Ficamos com a sensação de dejá vu o tempo inteiro, como se a vida mesma não fosse nossa. E a pergunta de Nietzsche, como respondo? Talvez já seja problema demais pensar a vida mesma,dentro dela. O que dizer então da possibilidade de pensá-la de fora, como Nietzsche parece supor? Afinal, aceito ou nego minha condição? Somos surpreendidos o tempo inteiro. O que ontem era mau, hoje torna-se bom. Em desvãos levamos nosso ser, atropelado, silencioso, entristecido, pleno. Não vejo por que se deveria condenar ou absolver nossa vida. Precisamos realmente é estar nela! Mas não será isso mesmo que Nietzsche mais quer?

sábado, 4 de dezembro de 2010

Escreva Lola Escreva: NÃO SOMOS HOMOFÓBICOS

Esse belo post, indicado pelo Paulo no Facebook, abriu meus olhos para a gravidade da violência e preconceito contra homossexuais
Escreva Lola Escreva: NÃO SOMOS HOMOFÓBICOS: "Como todos sabem, o Brasil vive uma total democracia racial, com irrestrita liberdade de oportunidades para brancos e negros, e o fato da ma..."

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

últimos dias


O dia da eleição está chegando e, com ele, o fim dos meus dias de militante político mais engajado. 
De minha parte, como diria Drummond, ficam duas coisas: 
1) uma pequena contribuição na defesa de um Brasil menos desigual e mais humano com Dilma Presidente;
2) o respeito à vontade suprema do povo, daqueles que fazem nosso país. É motivo de gáudio viver num país livre, num país que pode escolher; 

Que de nosso envolvimento e esperança possa nascer um Brasil melhor!



RESÍDUO

De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato 
se cobriu. Ficaram poucas 
roupas, poucos véus rotos, 
pouco, pouco, muito pouco. 

Mas de tudo fica um pouco. 
Da ponte bombardeada, 
de duas folhas de grama, 
do maço
-vazio- de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados, 
nas folhas, mudas, que sobem.
[...]

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Capes aprova doutorado em filosofia na Ufsm



Hoje é um dia histórico para os professores de filosofia da UFSM. Acaba de ser divulgada a aprovação, pela Capes, do Doutorado em Filosofia. É um enorme reconhecimento e, ao mesmo tempo, uma grande responsabilidade. Parabéns ao professores que trabalharam no projeto e aos demais professores do PPG!
Veja a notícia em: http://www.ufsm.br/

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Detalhes




A personalidade, escreveu o filósofo Mangabeira Unger, sofre a ação de duas forças de igual proporção: uma força de atração pelos outros, que nos faz buscar aceitação e reconhecimento fora de nós, e uma força de repulsa, de retraimento diante da constante ameaça de rejeição pelos outros. É difícil imaginar que a política eleitoral possa seguir as intuições de  Mangabeira sobre a personalidade; afinal,  nas democracias representativas, agentes políticos figuram num espaço de manobra amplo e abstrato quando comparado com as tensões da vida individual. Talvez a melhor psicologia para entender vínculos de pessoas com atores políticos, especialmente candidatos, seja a psicologia primitiva das relações filiais, da expectativa por um qualquer fio de proteção num mundo cada vez mais desumano e triste. É dificil saber. Em todo caso, eu aposto que uma porção de psicologia familiar está na base daquilo que nos faz sentir atraídos,  cativados, estreitados por um vínculo de amor e fé nos nossos candidatos. Do mesmo modo que confiamos no nosso pai, votar num candidato significa vê-lo como um lugar onde depositamos nossas muitas esperanças de justiça, felicidade, prosperidade e amor. Em muitos sentidos, é essa expectativa que tenho em relação a eleição de Dilma.

Mas, é preciso lembrar, psicologias de proteção nos transformam em seres infantis. Quando crescemos, descobrimos a vida e também nossos pais. E essa experiência, no mais das vezes, tem um sabor de decepção. Aprendemos isso na primeira eleição de Lula. Milhares de pessoas foram a Brasília para assistir sua posse, pois Lula representava um sonho de igualdade, justiça e esperança num país que foi, através dos séculos, explorado e impedido de ser uma grande nação. Eu também queria estar lá e lamentei por não fazer parte da festa. Queria estar próximo daquele sorriso leve e humano que via estampado na televisão. Mas então vieram as denúncias do mensalão e uma boa parte do Brasil ficou órfão do seu sonho de grandeza ética e política. A notícia foi tão triste quanto uma morte ou um amor que termina.

Crescer, viver uma vida adulta, significa conviver com a morte, com a perda. Seria melhor um governo sem nenhum caso de corrupção. Mas crescemos, literalmente, reconhecendo que o PT e o governo Lula não estavam imunes a erros. O governo Lula nos deu um susto, mas não foi, como disse o Frei Sérgio Görgen, retorcido pelos ferros do poder. O próprio Lula ergueu, com firmeza e com atenção voltada às pessoas que mais precisam, seu governo e fez o Brasil se aproximar mais da idéia de nação justa e próspera que tanto sonhamos. Hoje ele é aprovado por 80 % dos brasileiros. Esses números mostram que as feridas da vida podem ser curadas.

Estamos na reta final da eleição mais importante da história brasileira. Eu poderia votar na Dilma por identificação infantil ou por uma representação madura e adulta da experiência política, com a mente purgada dos excessos de inocência que alimentei em relação ao PT no passado. Eu estaria batizado em relação aos erros de um futuro governo petista. Mas isso tudo me parece racionalização excessiva. Confio mais no instinto, o instinto dos pequenos detalhes. E cada detalhe da vida da Dilma me faz admirá-la mais e mais. Nesse sentido, mais do que psicologia, creio que nossos votos seguem um caminho de identificação anterior a qualquer processo simbólico, verificável pela psicologia. É bem provável que nossas crenças políticas sejam movidas por aquilo que vemos nos olhos, no corpo e no rosto dos homens públicos. Pelo padrão de meus instintos, Serra cheira muito mal, é ranzinza, desleal e tem jeito de ser malvado com as pessoas mais simples. Seu jeito de falar e olhar mostra isso.
Lula é um líder que cuida, brinca e consegue mandar. Embora seja mais séria, Dilma parece com Lula. É firme, mas também sabe cuidar. Descobri isso quando vi seu primeiro programa eleitoral. Ela dizia que encontrou uma menina que pedia um trocado na porta de sua casa e, como só tinha uma nota de dinheiro, rasgou-a para que ela ficasse com a metade. Fiquei incrédulo. Coisa de marqueteiro de campanha, pensei. Mas não era. Ontem, quando um amigo me contou como a conheceu, descobri que não era. E essa descoberta foi, para mim, a maior das revelações. Sempre imaginei que alguém que apanhou na cadeia viveria com o coração torturado, fechado para o mundo, com ódio e rancor. A Dilma passou por isso, mas não sufocou sua veia de amor. Vejo em seus olhos indignação diante da injustiça, mas não vejo ódio. E a pequena história que vou contar a seguir é prova disso.

Como todo mundo sabe, Dilma foi diretora ou presidente da FEE (Fundação de Economia e Estatística do RS) no governo de Collares do PDT. Nessa época, ela trabalhou com a mãe de meu colega e amigo Rogério Severo. Um dia Rogério foi procurar sua mãe na Fundação. Fazia muito calor e, enquanto aguardava na entrada, uma mulher muito pobre pediu para o guarda deixá-la ficar no hall do prédio, para tomar água e ficar no ar fresquinho. A cena estranha de uma maltrapilha na entrada do prédio era notada por todas as pessoas que passavam. Apesar da estranheza, ninguém conseguiu ter sensibilidade de notar o que poderia ser feito, se ela precisava de ajuda ou algo assim. Nesse intervalo, Dilma desceu pelo elevador. Enquanto Rogério me contava a história, fiquei imaginando o que a Dilma faria. Uma das possibilidades, na verdade a primeira que me ocorreu, foi que ela mandaria o guarda retirá-la do prédio. Afinal, ela era diretora da Fundação e poderia não gostar de ver uma maltrapilha na porta de seu prédio.
Quando passou por ela, com apenas um rápido olhar, Dilma entendeu o que estava acontecendo. Ela percebeu que a mulher estava sem dinheiro e com fome; abriu sua bolsa, deu dois vales-refeição para ela, mostrou um restaurante e pediu que ela buscasse algo para comer. Tudo isso aconteceu numa época em que ela não era candidata a nada.
Dilma tem bom coração. Esse é um pequeno detalhe. Posso estar enganado, mas me parece que alguns detalhes fazem toda a diferença!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Entrevista de Ciro na Folha




A Folha, o Estadão, Zero Hora, até mesmo o Jornal Gazeta do Sul, aqui de Santa Cruz, só tem publicado notícias tendenciosas sobre o processo eleitoral. No primeiro turno, foram as graves "denúncias" sobre a quebra de sigilo dos filhinhos e parentes de Serra; agora, as tentativas tenazes de marcar o debate eleitoral pela questão do aborto; uma agenda que, claramente, serve apenas para o golpista Serra levar a cabo seu projeto de demonização de uma das pessoas mais sérias e competentes da política brasileira, Dilma Roussef, que lutou contra a ditadura e ajudou o Brasil, em seus vários anos de vida pública, a ser o país valoroso e próspero que é hoje.  Por que ninguém fala um pouco da responsabilidade dos tucanos com licitações fraudulentas nas obras do mêtro em São Paulo (que ocasionaram o acidente que matou operários e desalojou várias famílias)? Por que ninguém fala que os políticos responsáveis do PSDB, que viviam na TV lamentando a gastança do governo Lula e os riscos que podia representar para a estabilidade econômica, estão agora prometendo até 13° para aquilo que a esposa de Serra chamou de"bolsa vagabundagem"? Por que só há uma agenda que favorece Serra na cobertura que a mídia vem fazendo dessas eleições?

O leitor que não é bobo deve saber quem representa uma ameaça à democracia no Brasil. E se duvidam que as coisas que estou dizendo sejam verdade, espiem o esforço que o repórter da Folha faz nessa entrevista, para arrancar uma declaração comprometedora do Ciro Gomes. Não conseguiu e, por cima de tudo, arrancou uma das declarações mais sensatas que já li sobre aborto e a exploração de temas religiosos em política.
Segue, abaixo, uma pequena citação do Ciro e a entrevista, na íntegra, pode ser lida no link indicado acima.

Viva a democracia e viva a República e condene quem estiver fazendo isso, seja quem for. Porque, amigo bom, você é um jornalista. O dia em que gente permitir que o Brasil, que é admirado no mundo inteiro pela sua pluralidade, pela sua tolerância, pela sua laicização, por sua capacidade de todas as crenças sincreticamente se celebrarem aqui, sem violências, sem ódios, porque sempre mantivemos isso fora da política. Está se fazendo isso. Estou chamando a atenção.
Há limites. Determinados oportunismos tem que ser banidos, porque eleições se ganham e se perdem, mas as construções das bases em que uma cidadania se afirma... O Brasil pode estar experimentando nesse instante um retrocesso. Eu no dia em que precisar consultar o aiatolá da minha comunidade para tomar uma decisão civil, eu estou fora. Que ela vá lá ele mesmo, ele o aiatolá, o mulá, que vá lá e tome conta ele mesmo. 










quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Primeiro Heródoto, agora Maria Rita.


Depois de Heródoto Barbeiro, demitido por questionar o candidato Serra sobre o preço dos pedágios no Estado de São Paulo em entrevista no Rodaviva, agora foi a psicanalista Maria Rita Kehl que perdeu o emprego. A notícia é do Blog Caderno Ensaios:cadernoensaios.wordpress.com

Leio estarrecido que a psicanalista Maria Rita Kehl foi demitida sumariamente do Estadão por causa do artigo transcrito abaixo. Ela começou a escrever no jornal no início deste ano e, nesse pouco tempo, conseguiu produzir algumas ideias interessantes que revelavam uma sensibilidade excepcional.
Recordo que é tanto material para darmos conta nas nossas leituras diárias,  que deixamos escapar um ou outro material significativo.  O que fazer? Apenas lamentar o fato de que ignorei esse texto notável, pela sua contundência e clareza. Nele não há meias medidas, tampouco é agressivo ou pernóstico.
Embora um tanto tardio, reproduzo somente agora como prova da minha profunda admiração e solidariedade.

Por Maria Rita Kehl

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.
Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.
Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.
Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.
O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.
Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.
Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

Nota do Caderno ENSAiOS: Lemos hoje pela manhã a seguinte nota no Luis Nassif: “O jornalista Xico Sá @xicosa disse esta noite para seus 28,600 seguidores no Twitter que ‘o Estadao nao demitiu Maria Rita Kehl mas exige q ela nao escreva mais sobre política. Só psicanálise’. Embaixo um comentário de um internauta rasga com perfeição a lógica da nossa imprensa: “UÉ, não é o estadão que só fica escrevendo que está sob censura? Quando é um dos seus jornalistas, que escreve uma matéria a favor de Lula, ele demite? Adivinha quem mandou demitir?”

Nota do Caminho do Filósofo: O jornalista Xico Sá está enganado. Maria Rita foi realmente demitida, conforme ela informou em entrevista ao jornalista Bob Fernandes do Portal de Notícias Terra. Veja a entrevista na íntegra aqui

Manifesto Filósofos Pró-Dilma

Professores e Pesquisadores de Filosofia Apoiam Dilma Rousseff para a Presidência da República


Professores e pesquisadores de Filosofia, abaixo assinados, manifestamos nosso apoio à candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República. Seguem-se nossas razões.

Os valores de nossa Constituição exigem compromisso e responsabilidade por parte dos representantes políticos e dos intelectuais


Nesta semana completam-se vinte e dois anos de promulgação da Constituição Federal. Embora marcada por contradições de uma sociedade que recém começava a acordar da longa noite do arbítrio, ela logrou afirmar valores que animam sonhos generosos com o futuro de nosso país. Entre os objetivos da República Federativa do Brasil estão “construir uma sociedade livre, justa e solidária”, “garantir o desenvolvimento nacional”, “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais”.

A vitalidade de nossa República depende do efetivo compromisso com tais objetivos, para além da mera adesão verbal. Por parte de nossos representantes, ele deve traduzir-se em projetos claros e ações efetivas, sujeitos à responsabilização política pelos cidadãos. Dos intelectuais, espera-se o exame racionalmente responsável desses projetos e ações.

Os oito anos de governo Lula constituíram um formidável movimento na direção desses objetivos. Reconheça-se o papel do governo anterior na conquista de relativa estabilidade econômica. Ao atual governo, porém, deve-se tributar o feito inédito de conciliar crescimento da economia, controle da inflação e significativo desenvolvimento social. Nesses oito anos, a pobreza foi reduzida em mais de 40%; mais de 30 milhões de brasileiros ascenderam à classe média; a desigualdade de renda sofreu uma queda palpável. Não se tratou de um efeito natural e inevitável da estabilidade econômica. Trata-se do resultado de políticas públicas resolutamente implementadas pelo atual governo – as quais não se limitam ao Bolsa Família, mas têm nesse programa seu carro-chefe.

Tais políticas assinalam o compromisso do governo Lula com a realização dos objetivos de nossa República. Como ministra, Dilma Rousseff exerceu um papel central no sucesso dessa gestão. Cremos que sua chegada à Presidência representará a continuidade, aprofundamento e aperfeiçoamento do combate à pobreza e à desigualdade que marcou os últimos oito anos.

Há  razões para duvidar que um eventual governo José Serra ofereça os mesmos prospectos. É notório o desprezo com que os programas sociais do atual governo – em particular o Bolsa Família – foram inicialmente recebidos pelos atores da coligação que sustenta o candidato. Frente ao sucesso de tais programas, José Serra vem agora verbalizar sua adesão a eles, quando não arroga para si sua primeira concepção. Não tendo ainda, passado o primeiro turno, apresentado um programa de governo, ele nos lança toda sorte de promessas – algumas das quais em franco contraste com sua gestão como governador de São Paulo – sem esclarecer como concretizá-las. O caráter errático de sua campanha justifica ceticismo quanto à consistência de seus compromissos. Seu discurso pautado por conveniências eleitorais indica aversão à responsabilidade que se espera de nossos representantes. Ironicamente, os intelectuais associados ao seu projeto político costumam tachar o governo Lula e a candidatura Dilma de populistas.

O compromisso com a inclusão social é um compromisso com a democracia


A despeito da súbita conversão da oposição às políticas sociais do atual governo, ainda ecoam entre nós os chavões disseminados por ela sobre os programas de transferência de renda implementados nos últimos anos: eles consistiriam em mera esmola assistencialista desprovida de mecanismos que possibilitem a autonomia de seus beneficiários; mais grave, constituiriam instrumento de controle populista sobre as massas pobres, visando à perpetuação no poder do PT e de seus aliados. Tais chavões repousam sobre um equívoco de direito e de fato.

A história da democracia, desde seus primeiros momentos na pólis ateniense, é a história da progressiva incorporação à comunidade política dos que outrora se viam destituídos de voz nos processos decisórios coletivos. Que tal incorporação se mostre efetiva pressupõe que os cidadãos disponham das condições materiais básicas para seu reconhecimento como tais. A cidadania exige o que Kant caracterizou como independência: o cidadão deve ser “seu próprio senhor (sui iuris)”, por conseguinte possuir “alguma propriedade (e qualquer habilidade, ofício, arte ou ciência pode contar como propriedade) que lhe possibilite o sustento”. Nossa Constituição vai ao encontro dessa exigência ao reservar um capítulo aos direitos sociais.

Os programas de transferência de renda implementados pelo governo não apenas ajudaram a proteger o país da crise econômica mundial – por induzirem o crescimento do mercado interno –, mas fortaleceram nossa democracia ao criar bases concretas para a cidadania de milhões de brasileiros. Se atentarmos ao seu formato institucional, veremos que eles proporcionam condições para a progressiva autonomia de seus beneficiários, ao invés de prendê-los em um círculo de dependência. Que mulheres e homens beneficiados por tais programas confiram seus votos às forças que lutaram por implementá-los não deve surpreender ninguém – trata-se, afinal, da lógica mesma da governança democrática. Senhoras e senhores de seu destino, porém, sua relação com tais forças será propriamente política, não mais a subserviência em que os confinavam as oligarquias.

As liberdades públicas devem ser protegidas, em particular de seus paladinos de ocasião

Nos últimos oito anos – mas especialmente neste ano eleitoral – assistiu-se à reiterada acusação, por parte de alguns intelectuais e da grande imprensa, de que o presidente Lula e seu governo atentam contra as liberdades públicas. É verdade que não há governo cujos quadros estejam inteiramente imunes às tentações do abuso de poder; é justamente esse fato que informa o desenvolvimento dos sistemas de freios e contrapesos do moderno Estado de Direito. Todavia, à parte episódios singulares – seguidos das sanções e reparos cabíveis –, um olhar sóbrio sobre o nosso país não terá dificuldade em ver que o governo tem zelado pelas garantias fundamentais previstas na Constituição e respeitado a independência das instituições encarregadas de protegê-las, como o Ministério Público, a Procuradoria Geral da República e o Supremo Tribunal Federal.

Diante disso, foi com desgosto e preocupação que vimos personalidades e intelectuais ilustres de nosso país assinarem, há duas semanas, um autointitulado “Manifesto em Defesa da Democracia”, em que acusam o governo de tramas para “solapar o regime democrático”. À conveniência da candidatura oposicionista, inventam uma nova regra de conduta presidencial: o Presidente da República deve abster-se, em qualquer contexto, de fazer política ou apoiar candidaturas. Ironicamente, observada tal regra seria impossível a reeleição para o executivo federal – instituto criado durante o governo anterior, não sem sombra de casuísmo, em circunstâncias que não mereceram o alarme da maioria de seus signatários.

Grandes veículos de comunicação sistematicamente alardeiam que o governo Lula e a candidatura Dilma representam uma ameaça à liberdade de imprensa, enquanto se notabilizam por uma cobertura militante e nem sempre responsável da atual campanha presidencial. As críticas do Presidente à grande imprensa não exigem adesão, mas tampouco atentam contra o regime democrático, em que o Presidente goza dos mesmos direitos de todo cidadão, na forma da lei. Propostas de aperfeiçoamento dos marcos legais do setor devem ser examinadas com racionalidade, a exemplo do que tem acontecido em países como a França e a Inglaterra.

Se durante a campanha do primeiro turno houve um episódio a ameaçar a liberdade de imprensa no Brasil, terá sido o estranho requerimento da Dra. Sandra Cureau, vice-procuradora-geral Eleitoral, à revista Carta Capital. De efeito intimidativo e duvidoso lastro legal, o episódio não recebeu atenção dos grandes veículos de comunicação do país, tampouco ensejou a mobilização cívica daqueles que, poucos dias antes, publicavam um manifesto contra supostas ameaças do Presidente à democracia brasileira. O zelo pelas liberdades públicas não admite dois pesos e duas medidas. Quando a evocação das garantias fundamentais se vê aliciada pelo vale-tudo eleitoral, a Constituição é rebaixada à mera retórica.

Estamos convictos de que Dilma Rousseff, se eleita, saberá proteger as liberdades públicas. Comprometidos com a defesa dessas liberdades, recomendamos o voto nela.

Em  defesa do Estado laico e do respeito à diversidade de orientações espirituais, contra a instrumentalização política do discurso religioso

A Constituição Federal é suficientemente clara na afirmação do caráter laico do Estado brasileiro. É garantida aos cidadãos brasileiros a liberdade de crença e consciência, não se admitindo que identidades religiosas se imponham como condição do exercício de direitos e do respeito à dignidade fundamental de cada um. Isso não significa que a religiosidade deva ser excluída da cena pública; exige, porém, intransigência com os que pregam o ódio e a intolerância em nome de uma orientação espiritual particular.

É, pois, com preocupação que testemunhamos a instrumentalização do discurso religioso na presente corrida presidencial. Em particular, deploramos a guarida de templos ao proselitismo a favor ou contra esta ou aquela candidatura – em clara afronta à legislação eleitoral. Dilma Rousseff, em particular, tem sido alvo de campanha difamatória baseada em ilações sobre suas convicções espirituais e na deliberada distorção das posições do atual governo sobre o aborto e a liberdade de manifestação religiosa. Conclamamos ambos os candidatos ora em disputa a não cederem às intimidações dos intolerantes. Temos confiança de que um eventual governo Dilma Rousseff preservará o caráter laico do Estado brasileiro e conduzirá adequadamente a discussão de temas que, embora sensíveis a religiosidades particulares, são de notório interesse público.

O compromisso com a expansão e qualificação da universidade é condição da construção de um país próspero, justo e com desenvolvimento sustentável

É incontroverso que a prosperidade de um país se deixa medir pela qualidade e pelo grau de universalização da educação de suas crianças e de seus jovens. O Brasil tem muito por fazer nesse sentido, uma tarefa de gerações. O atual governo tem dado passos na direção certa. Programas de transferência de renda condicionam benefícios a famílias à manutenção de suas crianças na escola, diminuindo a evasão no ensino fundamental. A criação e ampliação de escolas técnicas e institutos federais têm proporcionado o aumento de vagas públicas no ensino médio. Programas como o PRODOCENCIA e o PARFOR atendem à capacitação de professores em ambos os níveis.

Em poucas áreas da governança o contraste entre a administração atual e a anterior é tão flagrante quanto nas políticas para o ensino superior e a pesquisa científica e tecnológica associadas. Durante os oito anos do governo anterior, não se criou uma nova universidade federal sequer; os equipamentos das universidades federais viram-se em vergonhosa penúria; as verbas de pesquisa estiveram constantemente à mercê de contingenciamentos; o arrocho salarial, aliado à falta de perspectivas e reconhecimento, favoreceu a aposentaria precoce de inúmeros docentes, sem a realização de concursos públicos para a reposição satisfatória de professores. O consórcio partidário que cerca a candidatura José Serra – o mesmo que deu guarida ao governo anterior – deve explicar por que e como não reeditará essa situação.

O atual governo tem agido não apenas para a recuperação do ensino superior e da pesquisa universitária, após anos de sucateamento, como tem implementado políticas para sua expansão e qualificação – com resultados já reconhecidos pela comunidade científica internacional. O PROUNI – atacado por um dos partidos da coligação de José Serra – possibilitou o acesso à universidade para mais de 700.000 brasileiros de baixa renda. Através do REUNI, as universidades federais têm assistido a um grande crescimento na infraestrutura e na contratação, mediante concurso público, de docentes qualificados. Programas de fomento, levados a cabo pelo CNPq e pela CAPES, têm proporcionado um sensível aumento da pesquisa em ciência e tecnologia, premissa central para o desenvolvimento do país. Foram criadas 14 novas universidades federais, testemunhando-se a interiorização do ensino superior no Brasil, levando o conhecimento às regiões mais pobres, menos desenvolvidas e mais necessitadas de apoio do Estado.

Ademais, deve-se frisar que não há possibilidade de desenvolvimento sustentável e preservação de nossa biodiversidade – temas cujo protagonismo na atual campanha deve-se à contribuição de Marina Silva – sem investimentos pesados em ciência e tecnologia. Não se pode esperar que a iniciativa privada satisfaça inteiramente essa demanda. O papel do Estado como indutor da pesquisa científica é indispensável, exigindo um compromisso que se traduza em políticas públicas concretas. A ausência de projetos claros e consistentes da candidatura oposicionista, a par do lamentável retrospecto do governo anterior nessa área, motiva receios quanto ao futuro do ensino superior e do conhecimento científico no Brasil – e, com eles, da proteção de nosso meio-ambiente – no caso da vitória de José Serra. A perspectiva de continuidade e aperfeiçoamento das políticas do governo Lula para o ensino e a pesquisa universitários motiva nosso apoio à candidatura de Dilma Rousseff.

Por essas razões, apoiamos a candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República. Para o povo brasileiro continuar em sua jornada de reencontro consigo mesmo. Para o Brasil continuar mudando!

06 de outubro de 2010

Para  os interessados em assinar o manifesto, favor enviar email com nome completo, vínculo institucuinal e demais informações que acharem relevantes para o endereço:manifestoprodilma@gmail.com. O link para assinaturas na internet desse manifesto é: https://sites.google.com/site/manifestofilosofosprodilma/home/assinaturas

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Aos meus amigos e irmãos

Somos feitos de sonho e expectativa e por mais que a vida perca o rumo e nos faça paralisar, sempre haverá um novo dia; o novo dia convida a criação da vida nova, do tempo novo. A política é como a vida: planta e rouba nossos melhores sonhos, mas sempre convida a sonhar. E sonhar quer dizer ver a nós mesmos em formas ainda não cumpridas, não realizadas, formas que alimentamos contra os riscos do passado e do presente. Eu sonho com um Brasil mais próspero e confiante, com menos injustiça social, menos opressão, mais entendimento e apoio mútuo. Os candidatos a presidente e governador mais capazes de construir esse Brasil e Rio Grande dos meus sonhos são, hoje, Dilma e Tarso.

Eu escrevi essas palavras depois de ler uma bela mensagem da Katarina e assistir o vídeo do último programa do Tarso, que ela recomendou. Obrigado Kata! Segue  uma bela passagem que ela escreveu sobre a Dilma e, mais abaixo, o link para o programa do Tarso.


Se você não vota em Dilma, não tem problema. Isso não o impedirá de sonhar e projetar um futuro. Se você detesta a Dilma e o PT, problema menor ainda. O PT, penso eu, meio que acabou. Tudo tem um custo, o que jamais se reduz a um preço, na vida. Então, isso não impedirá de você confiar que as instituições e o futuro serão mais tranquilos.
A Dilma não é somente séria. Não é somente republicana e workaholic. Não é apenas mineral em termos de caráter e força. Ela é nossa, viu? Ela também é música, numa palavra.

O último programa do Tarso 


sexta-feira, 24 de setembro de 2010

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Lula e a grande mídia


No Brasil, as pessoas consomem, as empresas lucram; o dinheiro do consumo ajuda a construir faculdades e escolas técnicas em cidades abandonadas do interior; as pessoas que moram no interior sentem que sua vida está mudando; os professores sentem que suas condições de trabalho estão melhorando, a ciência e a cultura renascem no país. Devemos todos esses acontecimentos ao governo de um nordestino que, mesmo sem estudo, tornou-se uma das personalidades políticas mais influentes do mundo.
Bom, mas você nunca leu nenhuma frase parecida com essa em jornais e revistas do nosso país. Por que será? Lula é perspicaz e sabe a resposta. Numa entrevista ao portal Terra sobre o poder da mídia, ele diz:

O que acontece muitas vezes é que uma crítica que você recebe é tida como democrática e uma crítica que você faz é tida como antidemocrática. Ou seja, como se determinados setores da imprensa estivessem acima de Deus e ninguém pudesse ser criticado. Escreveu está dito, acabou e é sagrado, como se fosse a Bíblia sagrada. Não é verdade. A posição de um presidente é tomada como ser humano, jornalista escreve como ser humano, juiz julga como ser humano. Ou seja, temos um padrão de comportamento e julgamento e, portanto, todos nós estamos à mercê da crítica. No Brasil - , e foi o Cláudio Lembo que disse para o Portal Terra -, a imprensa brasileira deveria assumir categoricamente que ela tem um candidato e tem um partido, que falasse. Seria mais simples, seria mais fácil. O que não dá é para as pessoas ficarem vendendo uma neutralidade disfarçada. Muitas vezes fica explícita no comportamento que eles têm candidato e gostariam que o candidato fosse outro. Tiveram assim em outros momentos. Acho que seria mais lógico, mais explícito. Mas, eles preferem fingir que não têm lado e fazem críticas a todas as pessoas que criticam determinados comportamentos e determinadas matérias.

Veja a entrevista na integra aqui.

domingo, 19 de setembro de 2010

20 de setembro



Meus amigos mais cultos, especialmente os filósofos e historiadores, não gostam muito das comemorações do 20 de setembro, o chamado "Dia do Gaúcho". Eu concordo com isso, em parte. Em parte, pois precisamos separar duas coisas. Em primeiro lugar, existe uma cultura grotesca, preconceituosa (em relação aos não-gauchos), machista, beligerante e ufanista no Rio Grande que merece ser repudiada. Essa parcela dos gaúchos identifica-se em demasia com o tradicionalismo e é conhecida por divulgar e defender uma historiografia artificiosa em torno da Revolução Farroupilha, uma historiografia que guarda compromissos ideológicos incompatíveis com a verdade histórica e com a criação de uma sociedade livre. É essa cultura que tornou-se responsável pela criação de muitos mitos em torno dos heróis farroupilhas, da celebração da revolução de 35 como um evento que exalta a dignidade do homem do Sul, algo bastante discutível pela historiografia mais recente*. É também essa cultura que pretende, por meios institucionais e midiáticos, anular qualquer outra manifestação social e cultural (como, por exemplo, a cultura musical vinculada ao Carnaval, a cultura roqueira, etc) diversa dos ideiais (pouco claros) do gaúcho tradicionalista. Todos os aspectos e traços dessa cultura merecem desprezo e repúdio. Nesse sentido, o dia do gaúcho, na medida que alimenta essa cultura, é um evento lastimável.

No entanto, há outra cultura gáucha, que não pode, é bem verdade, ser inteiramente separada dessa tradição artificiosa que foi criada, que tem produzido reflexos positivos na maneira como os gaúchos se relacionam com aspectos significativos de seu passado e presente. Essa cultura transparece através daquelas pessoas que reconhecem a si mesmas, que significam a si mesmas, seu lugar no mundo, através de categorias que não são alheias a cultura campeira ou gaudéria*. Reconheço essa cultura especialmente na arte do Rio Grande do Sul. A milonga, o chamamé (e boa parte da música dos festivais), a poesia e a literatura regionalista são exemplos de uma cultura gaúcha que se alimenta de elementos próprios, ricos, elementos que são resultado de uma cultura especializada (que tem como tema o vento, a vida no campo, o trato com animais, o fogo e assim por diante) e distintiva em relação a outras partes do Brasil e do mundo. Um claro exemplo do que estou tentando chamar a atenção pode ser encontrado na música de Vitor Ramil (de Ramilonga, especialmente) ou na poesia de Jayme Caetano Braum. Elas representam arte da melhor espécie e uma arte que se identifica com um gaúcho pampeano, com um tipo regional que não é encontrado noutras partes do Brasil. Essa cultura que, repito, não pode ser inteiramente separada dos elementos artificiais do gauchismo tacanho,  pode também estar sendo celebrada no "Dia do Gaúcho" e merece ser cultivada. Vou indicar, abaixo, dois pontos que são, no meu entendimento, relevantes (além dos indícios gerais que ofereci acima) para celebrar o 20 de setembro, sobretudo quando o pensamos vinculado ao segundo sentido que distingui acima do gauchismo.
Primeiro: há um certo sentido de apreço e amor por sua terra natal que percorre a cultura regionalista (eu gostaria de dizer nativista, mas não creio que o termo seja melhor ou mais claro que o qualificativo pejorativo tradicionalista). Considero estranha e perniciosa a possibilidade que brasileiros não mantenham nenhum amor pelo seu país. Assim também me parece perigoso que gaúchos, catarinenses, pernambucanos, goianos etc. não gostem de seu Estado. O amor ao seu Estado e país é uma virtude cívica. Culturas que estimular o anelo regionalista, especialmente aquele anelo que resulta na valorização de um modo especial, porque regional, de dizer a si mesmo (na arte, sobretudo) são positivas, pois carregam consigo um sentido de amor pátrio que é essencial à República.
Além disso, existem dimensões de ênfase no interior de diferentes tradições culturais. No interior de uma certa cultura, como por exemplo, a cultura dos fronteiriços, há certos aspectos que são distintos e marcados em relação a cultura de habitantes do litoral ou de regiões dominadas por filhos de imigrantes (como o vale do Caí ou do Taquari). Essas distinções podem ter elementos valiosos, que não são exprimíveis através de outras linguagens e afetos. Um exemplo disso pode ser a ênfase com que as relações de amor filial, a velhice, a fraqueza, o amor, a solidão aparecem retratadas no interior de culturas distintas. Nesse sentido, culturas distintas possuem modos distintos de significação da velhice, do amor, da paternidade, que são dignas de preservação. Novamente, músicas como "Veterano", imortalizada na voz de Leopoldo Racier e o poema "Mateando" de Jaime são exemplos de uma ênfase que a cultura regionalista dá a certos temas que, por si só, tornam essa cultura digna de ser celebrada. Creio que esses dois aspectos que apontei são suficientes para mostrar minhas razões para aceitar, com galhardia, minha condição de gaúcho, de habitante do extremo-sul do Brasil. Para encerrar, acrescento, abaixo, um link da música, o Bolicho de Cenair Maicá (foto), um dos quatro troncos missioneiros.  Gosto de pensar que no dia do Gaúcho celebramos a memória de Cenair e de outros tantos que fizeram uma história vinculada com a verdadeira liberdade e humanidade. .
http://www.youtube.com/watch?v=LsZoGCxAV4k&feature=related



* eu desconheço inteiramente a literatura crítica em relação a revolução farroupilha, mas sei que existe e lembro, de memória, que as principais teses defendidas nessa literatura afirmam que a revolução farroupilha foi uma revolta de estancieros motivada por interesses econômicos contra o império (que não representava, portanto, verdadeiros anseios de liberdade), que seus líderes eram aristocratas preconceituosos (sobretudo em relação aos combatentes negros); que a paz foi negociada na defesa de interesses dos militares revoltosos; não tratando-se, portanto, de nenhum pacto honroso, como se costuma propalar;

*nem todo Rio Grande é gaudério, é bom se dizer, embora não constitua tarefa fácil precisar o que seria a porção pampeana do Rio Grande. Uma forma de fazê-lo poderia ser apelar para a distinção, própria da geografia, entre território e espaço. 

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Filosofia da UFSM é Nota 5


O mestrado em filosofia da Ufsm agora faz parte do seleto grupo de programas de pós-graduação em filosofia com nota 5, conforme a avaliação da Capes. Nenhum programa de filosofia brasileiro tem nota superior a 6, sendo que a nota máxima é 7. Parabéns aos professores e alunos do Curso pelo belo trabalho. Espero, em breve, ajudar a manter essa nota e, quem sabe, melhorá-la ainda mais.  Acima uma foto da rua que desemboca no prédio da filosofia, no Campus.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Chiquinha

Chiquinha,  nossa cachorrinha querida, morreu ontem. Ela foi atropelada  na rua Dona Flora, na frente do Mercado do Gringo e teve uma morte instantânea e sem sofrimento. Chica era filha do Scooby e Juju (a cachorra do Bruno) e viveu conosco, desde bêbe, por cinco anos. Quando Scooby estava vivo e por perto, ela era muito feliz. Ultimamente, andava mais quieta (talvez pela vinda do Francisco), mas sempre foi uma presença alegre e bonita, pulando no colo das visitas, arranhando as portas e fazendo fulia por toda casa. Fica agora o vazio da ausência e a certeza que ela, Scobby e Juju se encontram correndo, latindo e perseguindo algum bichinho na grama lisa e verde do céu canino. (Amanhã tentarei colocar uma foto dela aqui)

domingo, 5 de setembro de 2010

Jamie Cullum - What A Difference A Day Made

Quem gosta de poesia de primeira qualidade e boa prosa deve conferir o blog no limiar do poeta Paulo Neves (foto). Quando converso ou simplesmente leio os escritos do Paulo fico com a clara sensação que nossa geração, a geração daqueles que nasceram na metade de 70 e início dos 80, é pálida e desatinada. Falta-nos tudo. Eles, ao contrário, são cheios de dignidade e força; sabem dizer as coisas. Por isso, muitas vezes, não podemos encará-los senão com medo. Paulo é um claro exemplo da grandeza de sua geração. Ao mesmo tempo, contrariamente a muitos que viveram em sua época, que viveram os anos mais difíceis da nossa história, é doce e amável como ninguém. É impossível conversar com ele sem lamentar não tê-lo conhecido antes. Abaixo um poema inédito que deve aparecer em seu novo livro de poesias.

página

Página luminosa e vertical,
como vou dialogar contigo?
No teu silêncio transparente, largo,
onde pôr o meu canto antigo?
Não és mais a página sobre a qual
debruçavam-se os sonhadores.
Agora és tu que me sonhas, num pago
indiferente às minhas dores

sábado, 4 de setembro de 2010

Finito e infinito



"Há um ponto em que todas as contradições harmonizam-se no seio do mistério da existência; onde o movimento não é totalmente movimento nem a quietude totalmente quietude; onde a idéia e a forma, o interior e o exterior, unem-se; onde o infinito se torna finito sem perder, apesar disso, sua infinitude. Se essa união for desfeita, então as coisas se tornam irreais. 
Quando vejo uma pétala de rosa com o microscópio, eu a vejo em um espaço mais dilatado do que ela realmente ocupa. A medida que aumento mais o espaço, a pétala se torna mais vaga, porque, no infinito puro, ela não é nem pétala de rosa nem qualquer outra coisa. Ela só se transforma em pétala de rosa quando o infinito se liga com o finito em um ponto dado. Quando nos afastamos desse ponto, para o pequeno ou para o grande, a pétala começa a perder sua realidade". (Rabindranath Tagore, A personalidade. In: Meditações, p. 82)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A Era Lula: A configuração do poder sob a perspectiva da circulação de elites



Estou em campanha aberta a favor da candidatura da Dilma Presidente. O principal problema que enfrentei até decidir em quem votar foi realizar um "acerto de contas" consciencial com a gravidade dos escândalos de corrupção envolvendo o governo Lula. Até poucos dias, tal acerto de contas parecia uma realidade distante. Não havia, na minha cabeça, como votar num partido que repetia as práticas sujas da direita. Seguindo a dica do Prof. João Vergílio no Twitter, reproduzo, abaixo, parte do excelente artigo de Cláudio Couto, na Cult, que, se não estou enganado, oferece uma perspectiva adequada e lúcida de análise das dificuldades morais do governo Lula. A sugestão de Couto é que o reconhecimento (livre de ressentimentos) do erro da esquerda brasileira em apresentar-se como "baluarte da ética" representa um amadurecimento das opções políticas e das possibilidades abertas para candidaturas de esquerda e direita.


"Pode-se dizer que nos prestaram um favor os sucessivos escândalos da era Lula (tanto os que atingiram petistas como os que respingaram em seus opositores): guindaram-nos a uma política pós-ética, bem menos ingênua do que aquela que muitos (sobretudo eleitores petistas) acalentaram durante muito tempo. Nesse novo cenário, as preferências políticas podem se apresentar de forma mais clara (como o que de fato são) e talvez até sobre um espaço para que esquerda e direita voltem a se mostrar de forma nítida – mesmo sem estarem hoje tão distantes uma da outra, como já estiveram no passado".

Leia o artigo na íntegra aqui

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A utilidade da filosofia


"Seguidamente faria notar a utilidade desta Filosofia [a filosofia cartesiana] e mostraria que, uma vez que se estende a tudo o que o espírito humano consegue saber, devemos acreditar que apenas ela nos distingue dos mais selvagens e bárbaros, e que uma nação é tanto mais civilizada e polida quanto melhor os seus homens filosofarem: e assim, o maior bem de um Estado é possuir verdadeiros filósofos. Além disso, para cada homem em particular é útil não só viver com os que se aplicam a tal estudo, mas também que é incomparavelmente melhor que cada qual se aplique a ele, pois vale muito mais servirmo-nos dos nossos próprios olhos para nos conduzirmos e desfrutarmos, por seu intermédio, da beleza das cores e da luz, do que mantê-los fechados e dispor apenas de si próprio para se conduzir. Ora, viver sem filosofar é ter os olhos fechados e nunca procurar abri-los; e o prazer de ver todas as coisas que a nossa vista descobre não é nada comparado com a satisfação que advém do conhecimento daquilo que se encontra pela Filosofia". (René Descartes,  na Carta Prefácio ao tradutor francês dos Princípios de Filosofia).

Os Princípios de Filosofia foram dedicados à Princesa Isabel, primeira filha de Frederico, Rei da Boêmia, e originalmente editados em Latim em 1644. Em 1647 foram traduzidos para o francês pelo abade Picot.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Filosofia e amizade



Acaba de ser publicado um capítulo escrito por mim sobre filosofia e amizade no livro Ó meus amigos, Não há amigos! Reflexão sobre a amizade, organizado pelas Professoras Suzana Albornoz e Eunice Piazza Gai. Veja mais detalhes aqui.  O livro foi publicado numa parceria entre a editora Movimento/Edunisc e ficou muito bonito. Como explica Suzana na apresentação, o título faz referência a uma passagem de Aristóteles muito evocada (em especial por Montaigne) na história da reflexão sobre a amizade.
O livro é um resultado de um seminário de extensão organizado pela profa. Suzana na Unisc. Esse foi o segundo e bem-sucedido seminário organizado pela Profa. Suzana. O primeiro foi sobre filosofia e felicidade. Nos dois casos, as notas das palestras foram melhoradas e publicadas em formato de livro. Meu texto no volume sobre felicidade ficou um tanto técnico e distante do estilo aberto da obra. Nessa edição sobre a amizade, acho que acertei mais o teor da escrita, embora minhas notas não estejam lá muito macias. Mas meu trabalho seria, naturalmente, muito mais interessante se contasse com a elegância da Suzana, da Eunice e de outros colegas que participaram dessas duas belas edições. Fica minha tristeza por não contar mais com a querida Suzana (que deixou a Unisc, assim como o autor dessas frases) para organizar nosso próximo encontro. Quem sabe ele não venha a ocorrer noutras plagas e tenha como tema o amor e a filosofia....

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Vou votar na Dilma



Tenho um grande interesse por filosofia política e por política concreta, a política que mexe com a vida das pessoas. Ao mesmo tempo, admito que os problemas humanos são grandes e dificilmente serão inteiramente resolvidos no interior de um espaço público comum, na esfera prática da política. No entanto, a história nos oferece alguma esperança, sobretudo quando o discurso e a ação política tiveram como princípio básico a busca do bem humano.

Aristóteles escreveu que "Toda cidade (polis) é uma comunidade de algum tipo,e toda comunidade é estabelecida tendo em vista algum bem....Mas, se todas as comunidades visam algum bem, a cidade ou comunidade política, que é a maior de todas, e engloba todas as restantes, visa o bem em grau maior que qualquer outra, e o mais alto bem". Como a passagem mostra, Aristóteles distingue a cidade de outras formas de comunidade humana (como a família, grupo) e considera que a mesma é essencial para a realização do mais alto bem humano ou  excelência humana: a vida de racionalidade moral e teórica (segundo ele, naturalmente). A cidade é assim um elemento crucial para alcançar a excelência humana.

A política concreta (a arte exercida pelos cidadãos da polis) de nossos dias está longe de visar a excelência, o bem humano supremo. Em parte, isso vem ocorrendo porque os agentes da política são menos cidadãos e mais políticos profissionais, agentes interessados no exercício do poder, na manutenção de sua função de governo.  Mas como eu dizia, às vezes a história nos oferece algum alento. Ter esperança em política, hoje,  não significa acreditar na existência de políticos com compromisso com o bem supremo humano. Já nos seria suficiente, ao menos, algum compromisso com a minimização do sofrimento humano, particularmente da fome e da injustiça social. Só quando essa disputa for realmente travada, as palavras de Aristóteles e de outros grandes pensadores da política voltarão a fazer sentido. Pobreza e miséria, mas sobretudo a opressão do pensamento, a impossibilidade de querer por si mesmo, ainda que se diga que nunca fomos tão livres quanto hoje, são os principais empecilhos da busca do bem humano. E somente os agentes políticos que tiverem esse ideal em vista merecem nosso voto modesto e sonhador.

Nesse ano temos boas opções para votar para presidente. Qualquer dos três principais candidatos com percentuais acima de 10% nas pesquisas são lúcidos e aparentam compromisso com os principais problemas sociais enfrentados no país.  As políticas sociais do governo Lula na educação e no combate à miséria são já, por si só, razão para votar no candidato do governo. Conheço pouco da história política da Dilma. Conversei com duas pessoas da minha mais alta estima, que conheceram e trabalharam com ela, e ambas comentaram que ela é séria e competente. Agora, acabo de ler a biografia da Dilma aqui.
 Nessa eleição temos que escolher um governo capaz de conseguir uma coalização de forças na arena política concreta e com sensibilidade social, uma vez que a solução dos dilemas humanos no trabalho e na materialidade da vida dependem de uma sensibilidade humana fundamental. O enfrentamento da ditadura, a ligação com o PDT de Brizola e o trabalho no setor energético em diferentes governos me convenceram que a Dilma é, hoje, a melhor opção.



quarta-feira, 14 de julho de 2010

O lugar do Brasil na história da filosofia



Não há dúvida que o trabalho institucional com filosofia e as condições da pesquisa filosófica (como atividade acadêmica regulada inter pares) melhorou muito nos últimos anos no  Brasil. Apresento uma lista de pontos onde podemos reconhecer alguma evolução:
a) melhorias no mercado editorial: houve um incremento no número de traduções de textos filosóficos de boa qualidade (tanto comentários, como textos originais de filósofos).

b) as chamadas "novas tecnologias" e suas funcionalidades (email, base de dados, materiais em formato eletrônico) facilitaram o contato entre pesquisadores, estudantes, acesso a livros, etc. 

c) o acesso e aprendizado de línguas de outros países (os países dos filósofos que são estudados aqui) tornou-se mais fácil, em função do advendo de (b);

d) as universidades parecem estar recebendo mais recursos, de modo que as bibliotecas dos cursos  e a interlocução de professores nacionais com professores de outras partes do mundo melhorou;

e) há uma demanda formal maior pela filosofia entre estudantes, leitores comuns e profissionais de áreas não-filosóficas (vide o surgimento de revistas de filosofia vendidas em bancas de jornal, a presença da filosofia em cursos de humanidades, cursos preparatórios para o vestibular e ensino médio).


Se tudo isso é, aparentemente, verdadeiro, o que falta ainda para considerarmos que o Brasil está em condições de ocupar um lugar na história do pensamento filosófico? O que falta para que nossas universidades façam brotar filosofias capazes de resistir ao tempo e filósofos de grande envergadura, filósofos que tenham o mesmo destaque que Putnam e Cavell de Harvard, por exemplo?

Essas perguntas não são fáceis de responder. Em primeiro lugar, há problemas de geo-política que impedem ou prejudicam o surgimento de grandes intelectuais brasileiros. Embora não sejam escritores menos hábeis, Machado de Assis e Guimarães Rosa não são conhecidos como Tolstoy, Flaubert ou Bukowski. A principal razão disso parece ser realmente uma questão do poder de editoras e das dificuldades de vender um autor brasileiro fora daqui (um problema que não parece ocorrer com a música e do futebol brasileiro). Com nossos grandes filósofos e filosofias poderia estar-se dando o mesmo. Mas, se isso fosse verdadeiro, deveria ser possível localizar os machados e rosas da filosofia. E quem são eles? E o que escreveram? 
Bueno, essas duas últimas questões são retóricas. Há bons filósofos no Brasil, filósofos como Putnam e Cavell. Desconheço completamente o trabalho de lógica do prof. Newton da Costa, mas ele parece ser um desses filósofos que tem levado o nome do Brasil muito longe. O sucesso de Newton da Costa, no entanto, ainda me parece insuficiente para afirmar que o Brasil já ocupa um lugar na história da filosofia. Em geral, parece necessário haver um certo espectro de questões sendo discutidas e um pequeno grupo de autores de destaque lidando com elas, para que um país possa ser reconhecido por sua contribuição filosófica. Talvez pudessemos ampliar a lista com os nomes de Porchat, Chateaubriand e outros autores mais antigos como Farias Brito, por exemplo. Mesmo ssim ind reluto. O lugr do pensmento filosófico brsileiro n históri d filosofi ind nõ foi estbelecido. Felizmentge me prece que nunc estivemos tõ perto de encontrr  esse lugr.







 

sábado, 10 de julho de 2010

Heródoto e Serra



Soube, através do blog do Marco, que o jornalista Heródoto Barbeiro foi demitido, supostamente por ter questionado o candidato a presidente José Serra acerca do valor dos pedágios no Estado de São Paulo, no programa Roda Viva. Heródoto, para quem não o conhece, é um dos jornalistas mais sérios e independentes que já vi na televisão brasileira. Tenho saudadades do tempo em que ele e o Luis Nassif dividiam a bancada do Jornal da Cultura. Se não me engano, ele é também formado em História, budista e, seguidamente, fazia boas recomendações de leitura em seus comentários no telejornal.  A demissão dele, caso tenha sido de fato motivada por questões da política tucana, é mais uma razão para não votar em José Serra.


terça-feira, 6 de julho de 2010

filosofia, produção e procriação



É curiosa e pouco explorada a relação entre filosofia e paternidade. Um grande número de filósofos famosos, até onde sabemos, não eram pais. Lembro, assim no más, dos seguintes: Platão, São Tomás, Descartes, Hume, Kant, Stuart Mill, Nietzsche, Wittgenstein, Heidegger. Rousseau abandonou seus filhos e Marx parece ter tido alguma dificuldade para alimentá-los. Imagino que, para alguns filósofos, ser pai poderia representar um impedimento para o pensamento; afinal, cuidar de crianças requer tempo! No entanto, é mais provável a hipótese de que eles, que tanto pensaram, nunca tenham dado uma atenção muito grande ao assunto, a não ser, talvez, em algum devaneio perdido, motivado pelos gritos de crianças na rua. 


Tive meu primeiro filho com 23 anos; mais ou menos a idade que Hume escreveu o Tratado da Natureza Humana. O segundo nasceu no ano passado. Aprendi e venho aprendendo muito com eles. Ter filhos não parece tão relevante para a humanidade quanto escrever bons livros. Mas ser pai tem lá suas compensações. Eu diria que elas aparecem quando nos movemos numa outra ordem de interesses, um domínio de  ganhos que não figura na esfera das questões diretamente acadêmicas (pelo menos naquelas que dizem respeito à filosofia). Seja como for, não parece haver nenhuma incompatibilidade lógica entre produzir e reproduzir, entre ser bom filósofo e ser pai. E talvez as chances de produzir algo relevante aumentem quando temos filhos mais cedo.

Penso em abandonar a arte da reprodução. Já na academia, tenho ainda mais uns 8 ou 9 anos para atingir a idade média da produção de uma obra influente (segundo o levantamente estatístico desse blog). Veremos! Até 2020!

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