sexta-feira, 24 de setembro de 2010

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Lula e a grande mídia


No Brasil, as pessoas consomem, as empresas lucram; o dinheiro do consumo ajuda a construir faculdades e escolas técnicas em cidades abandonadas do interior; as pessoas que moram no interior sentem que sua vida está mudando; os professores sentem que suas condições de trabalho estão melhorando, a ciência e a cultura renascem no país. Devemos todos esses acontecimentos ao governo de um nordestino que, mesmo sem estudo, tornou-se uma das personalidades políticas mais influentes do mundo.
Bom, mas você nunca leu nenhuma frase parecida com essa em jornais e revistas do nosso país. Por que será? Lula é perspicaz e sabe a resposta. Numa entrevista ao portal Terra sobre o poder da mídia, ele diz:

O que acontece muitas vezes é que uma crítica que você recebe é tida como democrática e uma crítica que você faz é tida como antidemocrática. Ou seja, como se determinados setores da imprensa estivessem acima de Deus e ninguém pudesse ser criticado. Escreveu está dito, acabou e é sagrado, como se fosse a Bíblia sagrada. Não é verdade. A posição de um presidente é tomada como ser humano, jornalista escreve como ser humano, juiz julga como ser humano. Ou seja, temos um padrão de comportamento e julgamento e, portanto, todos nós estamos à mercê da crítica. No Brasil - , e foi o Cláudio Lembo que disse para o Portal Terra -, a imprensa brasileira deveria assumir categoricamente que ela tem um candidato e tem um partido, que falasse. Seria mais simples, seria mais fácil. O que não dá é para as pessoas ficarem vendendo uma neutralidade disfarçada. Muitas vezes fica explícita no comportamento que eles têm candidato e gostariam que o candidato fosse outro. Tiveram assim em outros momentos. Acho que seria mais lógico, mais explícito. Mas, eles preferem fingir que não têm lado e fazem críticas a todas as pessoas que criticam determinados comportamentos e determinadas matérias.

Veja a entrevista na integra aqui.

domingo, 19 de setembro de 2010

20 de setembro



Meus amigos mais cultos, especialmente os filósofos e historiadores, não gostam muito das comemorações do 20 de setembro, o chamado "Dia do Gaúcho". Eu concordo com isso, em parte. Em parte, pois precisamos separar duas coisas. Em primeiro lugar, existe uma cultura grotesca, preconceituosa (em relação aos não-gauchos), machista, beligerante e ufanista no Rio Grande que merece ser repudiada. Essa parcela dos gaúchos identifica-se em demasia com o tradicionalismo e é conhecida por divulgar e defender uma historiografia artificiosa em torno da Revolução Farroupilha, uma historiografia que guarda compromissos ideológicos incompatíveis com a verdade histórica e com a criação de uma sociedade livre. É essa cultura que tornou-se responsável pela criação de muitos mitos em torno dos heróis farroupilhas, da celebração da revolução de 35 como um evento que exalta a dignidade do homem do Sul, algo bastante discutível pela historiografia mais recente*. É também essa cultura que pretende, por meios institucionais e midiáticos, anular qualquer outra manifestação social e cultural (como, por exemplo, a cultura musical vinculada ao Carnaval, a cultura roqueira, etc) diversa dos ideiais (pouco claros) do gaúcho tradicionalista. Todos os aspectos e traços dessa cultura merecem desprezo e repúdio. Nesse sentido, o dia do gaúcho, na medida que alimenta essa cultura, é um evento lastimável.

No entanto, há outra cultura gáucha, que não pode, é bem verdade, ser inteiramente separada dessa tradição artificiosa que foi criada, que tem produzido reflexos positivos na maneira como os gaúchos se relacionam com aspectos significativos de seu passado e presente. Essa cultura transparece através daquelas pessoas que reconhecem a si mesmas, que significam a si mesmas, seu lugar no mundo, através de categorias que não são alheias a cultura campeira ou gaudéria*. Reconheço essa cultura especialmente na arte do Rio Grande do Sul. A milonga, o chamamé (e boa parte da música dos festivais), a poesia e a literatura regionalista são exemplos de uma cultura gaúcha que se alimenta de elementos próprios, ricos, elementos que são resultado de uma cultura especializada (que tem como tema o vento, a vida no campo, o trato com animais, o fogo e assim por diante) e distintiva em relação a outras partes do Brasil e do mundo. Um claro exemplo do que estou tentando chamar a atenção pode ser encontrado na música de Vitor Ramil (de Ramilonga, especialmente) ou na poesia de Jayme Caetano Braum. Elas representam arte da melhor espécie e uma arte que se identifica com um gaúcho pampeano, com um tipo regional que não é encontrado noutras partes do Brasil. Essa cultura que, repito, não pode ser inteiramente separada dos elementos artificiais do gauchismo tacanho,  pode também estar sendo celebrada no "Dia do Gaúcho" e merece ser cultivada. Vou indicar, abaixo, dois pontos que são, no meu entendimento, relevantes (além dos indícios gerais que ofereci acima) para celebrar o 20 de setembro, sobretudo quando o pensamos vinculado ao segundo sentido que distingui acima do gauchismo.
Primeiro: há um certo sentido de apreço e amor por sua terra natal que percorre a cultura regionalista (eu gostaria de dizer nativista, mas não creio que o termo seja melhor ou mais claro que o qualificativo pejorativo tradicionalista). Considero estranha e perniciosa a possibilidade que brasileiros não mantenham nenhum amor pelo seu país. Assim também me parece perigoso que gaúchos, catarinenses, pernambucanos, goianos etc. não gostem de seu Estado. O amor ao seu Estado e país é uma virtude cívica. Culturas que estimular o anelo regionalista, especialmente aquele anelo que resulta na valorização de um modo especial, porque regional, de dizer a si mesmo (na arte, sobretudo) são positivas, pois carregam consigo um sentido de amor pátrio que é essencial à República.
Além disso, existem dimensões de ênfase no interior de diferentes tradições culturais. No interior de uma certa cultura, como por exemplo, a cultura dos fronteiriços, há certos aspectos que são distintos e marcados em relação a cultura de habitantes do litoral ou de regiões dominadas por filhos de imigrantes (como o vale do Caí ou do Taquari). Essas distinções podem ter elementos valiosos, que não são exprimíveis através de outras linguagens e afetos. Um exemplo disso pode ser a ênfase com que as relações de amor filial, a velhice, a fraqueza, o amor, a solidão aparecem retratadas no interior de culturas distintas. Nesse sentido, culturas distintas possuem modos distintos de significação da velhice, do amor, da paternidade, que são dignas de preservação. Novamente, músicas como "Veterano", imortalizada na voz de Leopoldo Racier e o poema "Mateando" de Jaime são exemplos de uma ênfase que a cultura regionalista dá a certos temas que, por si só, tornam essa cultura digna de ser celebrada. Creio que esses dois aspectos que apontei são suficientes para mostrar minhas razões para aceitar, com galhardia, minha condição de gaúcho, de habitante do extremo-sul do Brasil. Para encerrar, acrescento, abaixo, um link da música, o Bolicho de Cenair Maicá (foto), um dos quatro troncos missioneiros.  Gosto de pensar que no dia do Gaúcho celebramos a memória de Cenair e de outros tantos que fizeram uma história vinculada com a verdadeira liberdade e humanidade. .
http://www.youtube.com/watch?v=LsZoGCxAV4k&feature=related



* eu desconheço inteiramente a literatura crítica em relação a revolução farroupilha, mas sei que existe e lembro, de memória, que as principais teses defendidas nessa literatura afirmam que a revolução farroupilha foi uma revolta de estancieros motivada por interesses econômicos contra o império (que não representava, portanto, verdadeiros anseios de liberdade), que seus líderes eram aristocratas preconceituosos (sobretudo em relação aos combatentes negros); que a paz foi negociada na defesa de interesses dos militares revoltosos; não tratando-se, portanto, de nenhum pacto honroso, como se costuma propalar;

*nem todo Rio Grande é gaudério, é bom se dizer, embora não constitua tarefa fácil precisar o que seria a porção pampeana do Rio Grande. Uma forma de fazê-lo poderia ser apelar para a distinção, própria da geografia, entre território e espaço. 

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Filosofia da UFSM é Nota 5


O mestrado em filosofia da Ufsm agora faz parte do seleto grupo de programas de pós-graduação em filosofia com nota 5, conforme a avaliação da Capes. Nenhum programa de filosofia brasileiro tem nota superior a 6, sendo que a nota máxima é 7. Parabéns aos professores e alunos do Curso pelo belo trabalho. Espero, em breve, ajudar a manter essa nota e, quem sabe, melhorá-la ainda mais.  Acima uma foto da rua que desemboca no prédio da filosofia, no Campus.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Chiquinha

Chiquinha,  nossa cachorrinha querida, morreu ontem. Ela foi atropelada  na rua Dona Flora, na frente do Mercado do Gringo e teve uma morte instantânea e sem sofrimento. Chica era filha do Scooby e Juju (a cachorra do Bruno) e viveu conosco, desde bêbe, por cinco anos. Quando Scooby estava vivo e por perto, ela era muito feliz. Ultimamente, andava mais quieta (talvez pela vinda do Francisco), mas sempre foi uma presença alegre e bonita, pulando no colo das visitas, arranhando as portas e fazendo fulia por toda casa. Fica agora o vazio da ausência e a certeza que ela, Scobby e Juju se encontram correndo, latindo e perseguindo algum bichinho na grama lisa e verde do céu canino. (Amanhã tentarei colocar uma foto dela aqui)

domingo, 5 de setembro de 2010

Jamie Cullum - What A Difference A Day Made

Quem gosta de poesia de primeira qualidade e boa prosa deve conferir o blog no limiar do poeta Paulo Neves (foto). Quando converso ou simplesmente leio os escritos do Paulo fico com a clara sensação que nossa geração, a geração daqueles que nasceram na metade de 70 e início dos 80, é pálida e desatinada. Falta-nos tudo. Eles, ao contrário, são cheios de dignidade e força; sabem dizer as coisas. Por isso, muitas vezes, não podemos encará-los senão com medo. Paulo é um claro exemplo da grandeza de sua geração. Ao mesmo tempo, contrariamente a muitos que viveram em sua época, que viveram os anos mais difíceis da nossa história, é doce e amável como ninguém. É impossível conversar com ele sem lamentar não tê-lo conhecido antes. Abaixo um poema inédito que deve aparecer em seu novo livro de poesias.

página

Página luminosa e vertical,
como vou dialogar contigo?
No teu silêncio transparente, largo,
onde pôr o meu canto antigo?
Não és mais a página sobre a qual
debruçavam-se os sonhadores.
Agora és tu que me sonhas, num pago
indiferente às minhas dores

sábado, 4 de setembro de 2010

Finito e infinito



"Há um ponto em que todas as contradições harmonizam-se no seio do mistério da existência; onde o movimento não é totalmente movimento nem a quietude totalmente quietude; onde a idéia e a forma, o interior e o exterior, unem-se; onde o infinito se torna finito sem perder, apesar disso, sua infinitude. Se essa união for desfeita, então as coisas se tornam irreais. 
Quando vejo uma pétala de rosa com o microscópio, eu a vejo em um espaço mais dilatado do que ela realmente ocupa. A medida que aumento mais o espaço, a pétala se torna mais vaga, porque, no infinito puro, ela não é nem pétala de rosa nem qualquer outra coisa. Ela só se transforma em pétala de rosa quando o infinito se liga com o finito em um ponto dado. Quando nos afastamos desse ponto, para o pequeno ou para o grande, a pétala começa a perder sua realidade". (Rabindranath Tagore, A personalidade. In: Meditações, p. 82)