sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Emerson, sobre a cultura


"Uma expressão fisionômica feliz e inteligente é o fim da cultura, e eis aí um sucesso suficiente. Porque mostra que o fim da Natureza e da sabedoria é alcançado" (Emerson em A conduta da Vida).

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Sócrates e a juventude


Dizem que o sábio Sócrates gostava muito da garotada de Atenas. Posso vê-lo rodeado de amigos de todas as idades, mas principalmente de gente nova. Podia ser diferente? Sócrates era uma mensagem que só as almas menos contaminadas podiam receber. Suspeito que agrade ao ar puro ser devorado por pulmões jovens.
A juventude de Sócrates e a nossa juventude devem ser diferentes em tudo, menos na capacidade de surpreender! Hoje mesmo soube que meu sobrinho quer estudar filosofia na UFRGS....uma informação estarrecedora, se considerarmos a natureza dos tempos. Explico melhor.
De um lado, o filósofo tornou-se um profissional equipado com ferramentas para resolver conflitos teóricos. Um homem de gabinete, de papers, de esforços que talvez façam pouca justiça às aspirações, inquietude e voracidade que domina a cabeça de certos guris e gurias de nosso tempo. Precisávamos de um novo Sócrates para lidar com eles, para vocalizar, alimentar e combater ao seu lado, alguém cuja personalidade combinasse as artes do professor e do guia espiritual, pois eles estão, sem dúvida, buscando homens desse feitio. Imagino que a maioria dos filósofos de hoje (dentre os quais me incluo) não saberá conduzi-los por essas lições difíceis.

De outro lado, é estarrecedor que alguém queira ser filósofo, pois o mundo tornou-se avesso a qualquer promessa de pensamento; tornou-se avesso ao distanciamento. O nosso mundo é o mundo da absorção; a absorção que salva, que faz esquecer, mas também a absorção que cega e esconde a praia deserta.

Só nos resta torcer para que saia de dentro de nós um Sócrates moderno, assim como continua saindo de dentro de nossos filhos o desejo imenso de prescrutar as fronteiras do homem....um trabalho para o qual não há época, nem idade adequada para começar.

Sócrates afastando Alcebíades do vício, obra do pintor imperial Pedro Américo.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Mais abacate...


Aos blogueiros e nautas que passeiam por aqui
recomendo que, no próximo ano, andem pelados;
cruzem avenidas novas,
tenham menos açucar no sangue e mais fome na cabeça
que brinquem com os filhos, estejam com seus parceiros,
com as mochilas vazias
nessa nobreza ou vanguarda que é persistir.

Recomendo que lancem fora as mordidas,
os beijos, que reverenciem o cheiro das coisas
e rompam a coberta larga da expectativa,
liberem o novo conhecimento
sobre os poros do firmamento ilustre.

Recomendo desejo, flores e frases douradas
doses de amor viciado;
estejam em várias partes
estejam do meu lado.

F.

O amor


Meus amigos filósofos, na imensa maioria, são metafísicos ou lógicos. Até onde sei, estão quase sempre preocupados em resolver questões como estas: qual a estrutura essencial do mundo? existe liberdade humana? é possível o auto-conhecimento? a quê nossos pensamentos se referem? as proposições dizem algo?
Mas se encontrasse um filósofo hoje (e não devo encontrar, pois não vou sair de casa) perguntaria: o amor romântico é possível? Nos últimos anos tem se aguçado em mim a crença de que as experiências de amor são muito frágeis. Lá no fundo, no entanto, acho que o amor é mais do que as experiências que vivi. Minha alma anseia por uma experiência perene, uma rocha firme para me abraçar e apreciar o vaivém das ondas da vida. Gostaria de saber se tal imagem é real, pois não consigo determinar qual é a alternativa verdadeira dentre essas três opções: a) minhas imagens do amor são vazias; b) o amor possível é o amor frágil c) vivi um amor real, profundo e verdadeiro sem ser capaz de reconhecer!

terça-feira, 16 de dezembro de 2008


"O riso é imediato. Ver o presidente dos Estados Unidos a encolher-se atrás do microfone enquanto um sapato voa sobre a sua cabeça é um excelente exercício para os músculos da cara que comandam a gargalhada. Este homem, famoso pela sua abissal ignorância e pelos seus contínuos dislates linguísticos, fez-nos rir muitas vezes durante os últimos oito anos".....

Recomendo a leitura no blog do Saramago.

domingo, 14 de dezembro de 2008

O que pode atormentar o homem?


Quando a vida complica, nada melhor do que filosofia estóica, café e silêncio!

Da vida humana, a duração é um ponto; a substância, fluída; a sensação, apagada; a composição de todo o corpo, putrescível; a alma, inquieta; a sorte, imprevisível; a fama, incerta.
Em suma, tudo que é do corpo é um rio; o que é da alma, sonho e névoa; a vida, uma guerra, um desterro; a fama póstuma, olvido.
O que, pois, pode servir-nos de guia? Só e única a Filosofia. Consiste ela em guardar o nume interior livre de insolências e danos, mais forte que os prazeres e mágoas, nada fazendo com leviandade, engano ou dissimulação, nem precisando que outrem faça ou deixe de fazer nada, acatando, ainda, os eventos e quinhões que lhe tocam, como vindos da mesma origem qualquer donde vem ele próprio; sobretudo, aguardando de boa mente a morte, qual mera dissolução dos elementos de que se compõe cada um dos viventes (Marco Aurélio, Meditações, col. pensadores, p. 269)

Cartesiano




Quanto mais leio Descartes, mais gosto e mais lamento nossos métodos superficiais de ensino filosófico. Muita gente argumenta que fazer um curso de filosofia no Brasil não é a melhor maneira de aprender a filosofar. Eu já acho que fazer um curso de filosofia não é nem mesmo a melhor maneira de aprender o que os filósofos mais importantes pensaram. Para entender um pensamento é preciso entender o homem por trás do pensamento. Foi Nietzsche que disse que é preciso advinhar o pintor para entender o quadro. Essa tarefa exige tempo, exige intenção ou desejo de abertura, exige um espírito nobre...nada que combine com as fastidiosas disputas e investigações sobre o significado da frase x, do livro y.

"Seguidamente faria notar a utilidadade desta Filosofia e mostraria que, uma vez que se estende a tudo o que o espírito humano consegue saber, devemos acreditar que apenas ela nos distingue dos mais selvagens e bárbaros, e que uma nação é tanto mais civilizada e polida quanto melhor os seus homens filosofarem: e assim, o maior bem de um Estado é possuir verdadeiros filósofos. Além disso, para cada homem em particular é útil não só viver com os que se aplicam a tal estudo, mas também é incomparavelmente melhor que cada qual se aplique a ele, pois vale muito mais servimo-nos dos nossos próprios olhos para nos conduzirmos e desfrutarmos, por seu intermédio, da beleza das cores e da luz, do que mantê-los fechados e dispor apenas de si própria para se conduzir. Ora, viver sem filosofar é ter os olhos fechados e nunca procurar abri-los; e o prazer de ver todas as coisas que a nossa vista descobre não é nada coomparado com a satisfação que advém do conhecimento daquilo que se encontra pela Filosofia" (DESCARTES, R. Princípios de Filosofia. Lisboa: Edições 70, p. 16).

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Bonita essa foto do filósofo romeno Emil Cioran. Mais bonita ainda é a passagem abaixo sobre o fanatismo. Imagino que o amigo César goste muito dela, embora eu a julgue um pouco exagerada. Entre aqueles que tinham uma "concepção da vida" contam-se bons homens. As mortes e a dor que a crença na verdade produziu não podem ser pretexto para a irrazão e o cinismo, para transformar o absurdo em espetáculo. Embora não conheça, suspeito que o pessimismo do Cioran acabe nessas terras. Deve haver algo como uma luz radiante sobre toda essa bagunça e desvios que percebemos cá no mundo sublunar, deve haver a realidade de Platão, uma idéia do Bem tranquilizadora, governando tudo. O problema, como sempre, somos nós os cegos e rotos que tateiam na escuridão. A passagem completa está no blog do Antonio Cicero.

Em um espírito ardente encontramos o animal de rapina disfarçado; não poderíamos defender-nos demasiado das garras de um profeta... Quando elevar a voz, seja em nome do céu, da cidade ou de outros pretextos, afaste-se dele: sátiro de nossa solidão, não perdoa que vivamos aquém de suas verdades e de seus arrebatamentos; quer fazer-nos compartilhar de sua histeria, de seu bem, impô-lo a nós e desfigurar-nos. Um ser possuído por uma crença e que não procurasse comunicá-la aos outros seria um fenômeno estranho à terra, onde a obsessão da salvação torna a vida irrespirável. Olhe à sua volta: por toda parte larvas que pregam; cada instituição traduz uma missão; as prefeituras têm seu absoluto como os templos; a administração, com seus regulamentos — metafísica para uso de macacos... Todos se esforçam por remediar a vida de todos; aspiram a isso até os mendigos, inclusive os incuráveis: as calçadas do mundo e os hospitais transbordam de reformadores. A ânsia de tornar-se fonte de acontecimentos atua sobre cada um como uma desordem mental ou uma maldição intencional. A sociedade é um inferno de salvadores! O que Diógenes buscava com sua lanterna era um indiferente.

CIORAN. Breviário de decomposição. Rio de Janeiro: Rocco, 1989

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008