sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Sonhos


Existe um fenômeno provocado pelos hábitos de pensamento formais (profissão, área de trabalho) e informais (preferências de leitura, conhecimento geral etc.) que, na falta de melhor nome, poderia ser chamado de padronização generalizante: percebe-se só alguns aspectos de um certo acontecimento ou fenômeno e esses aspectos são assumidos como padrão de entendimento e ponto de partida para qualquer explicação daquele fenômeno. É uma espécie de cegueira natural, não intencionada e um problema empírico difícil de resolver, pois um cientista ou diletante pode facilmente perceber o quão salutar é saltar para fora do paradigma da profissão ou do seu núcleo formativo, mas não conseguir nunca (ou só com muito custo) enxergar o que seria uma alternativa ao seu treinamento ou visão de mundo. Talvez um pequeno exemplo histórico ajude a entender o que estou querendo dizer: médicos ofuscados pelo sucesso das descobertas de Pasteur com bactérias tentaram durante muitos anos localizar o microorganismo responsável pelas avitaminoses (doenças funcionais como o escorbuto, béri-béri e outras). Por partilharem a crença de que todas as doenças resultam da ação de algum organismo vivo, foi necessário muito tempo para reconhecer que certas doenças são provocadas pelo tipo de alimento consumido pelas pessoas, quantidade, etc. Foi depois disso que a epidemiologia deu lugar, na medicina, à nutrição, dietética e ao estrondoso uso das vitaminas. Na ciência, esse estreitamento do olhar muitas vezes impede o progresso científico, cria intolerância contra abordagens rivais, reduz acontecimentos a um tipo de explicação geral admissível, mas também confere estabilidade e um certo cânone para a formação de profissionais.
Na vida comum, o estreitamento do olhar se manifesta no entendimento limitado dos problemas que envolvem a vida social e individual (amor, trabalho, amizade, doença), porém também produz reflexos positivos como uma espécie de senso de orientação e de auto-entendimento no interior de um grupo social.

E o filósofo, como se comporta diante de abordagens e tratamentos alternativos aos problemas que procura explicar? Filósofos sofrem muito da doença do aprisionamento do olhar. Um dos lugares em que ela me parece se manifestar muito claramente é no entendimento da nossa condição. A condição humana é um termo vago.Para evitar confusão usarei a expressão "condição humana" num sentido bastante restrito e particular (que me parece um pressuposto de todas as filosofias ocidentais seculares): ser humano significa, inter alia, ser mortal e dotado de uma faculdade da sensibilidade e razão que nos informa o que acontece no mundo físico e como devemos organizar dados sensíveis.
Nessa representação, o homem é uma espécie de ser que nasce, sobrevive através de sua capacidade de "ler o mundo", e morre. Gostaria de criticar um ponto em particular dessa imagem geral. Meu ponto diz respeito à sensibilidade. Não creio que a sensibilidade humana ou, ainda, que o único modo de entender o que ocorre ao nosso redor possa ser reduzido à categoria do sensível ou detectável. O que é o sonho, por exemplo, e qual seu lugar num entendimento de nossa condição? Pensemos no fenômeno bruto do sonho. Estamos dormindo e vemos imagens. Algumas dessas imagens são desconexas e não as lembramos durante o dia. Mas outras imagens oníricas são fortes, curativas, ricas, assustadoras. A filosofia (aquela que conheço) nada diz sobre a contribuição dos sonhos para o entendimento da sensibilidade humana. E se os sonhos forem uma forma de sentir? Uma forma de aprender coisas que a consciência desperta ou de vigília não consegue abarcar? Se o sonho for uma experiência sui generis e importante para o desvendamento de nossa condição?
Faço todas essas perguntas, pois já tive sonhos cruciais ou significativos que desempenharam um papel relevante no meu atual entendimento da vida. E, segundo me relatou um amigo, muitas pessoas contam que tiveram sonhos que desempenharam funções determinantes em suas vidas. Talvez o que nos falte seja uma teoria dos sonhos menos vinculada à vida diurna, como foi a teoria de Freud na interpretação dos sonhos. Talvez seja necessário construir uma teoria radical do sonho, como um fenômeno próprio e não menos significativo que a experiência de ver e tocar coisas, por exemplo. Não poderia ser o sonho uma habilidade sensível de ver nosso próprio futuro? Uma sensibilidade do amanhã (como acontece nos sonhos de deja vù)? Não poderia ser o sonho um mecanismo de acesso à realidades diferentes daquelas vividas quando estamos despertos? Mas se for assim, o que as experiências oníricas estão a dizer? Que não somos apenas seres físicos? É difícil de responder. Nossa melhor atitude aqui talvez seja a cautela: admitir que descrições filosóficas da sensibilidade podem não ser descrições completas de uma sensibilidade rica como a humana.

2 comentários:

Cesar Shu disse...

Oi Flávio,

acho que o que tu procura é assunto da antropologia. Há vários povos ameríndios que não repartem sono/vigília tal como nós. O Viveiros de Castro trata disso em algum lugar, acho que até em entrevistas disponíveis na web. Até mesmo algo do teu ponto sobre sensibilidade (objetiva) tá contemplado nessas pesquisas.

Flavio disse...

César,

Valeu pela dica. Andei lendo umas coisas do Heráclito e acho mesmo que essa nossa forma de ver a realidade humana (objetiva e largamente vinculada aos orgãos sensíveis) não é, ao menos, a única forma possível. Resta saber se formas alternativas são criações especulativas ou realidades. Seguirei lendo. Quando descobrir algo, conto aqui.