sábado, 13 de fevereiro de 2010

Dúvida



Faz séculos que não encontro tempo para visitar o cinema. Todo meu contato com o cinema vem, agora, da tv paga e de dvds locados. Na televisão, com excessão das estréias do telecine, não há nada especial para ver. Em geral, é sangue, vampiro e terror o tempo inteiro. Não sei para quem os cineastas americanos dirigem e quem define o tipo de filme que vai ser produzido. Certamente ninguém parecido comigo foi ouvido na pesquisa de mercado deles. Eu simplesmente não vejo graça nenhuma em filmes sangrentos, de bandidagem, assinatos e também nos filmes de terror. É claro que existem filmes de ação de boa qualidade, mas custa encontrar. Ou talvez eu seja um expectador sem graça, um boboca que não consegue ver a sutileza da violência urbana....a verdade é que faz falta, na minha pobre dieta cultural, filmes edificantes, que ajudem a pensar e viver ou simplesmente que sejam bom passatempo. Como não posso contar com a tv, fui na locadora e encontrei uma boa surpresa: Doubt. É um filme intrigante sobre um tema delicado e coberto de preconceitos: a pedofilia entre padres da igreja. Assisti com meu filhinho Francisco por perto, de modo que não lembro perfeitamente do roteiro. A pedofilia serve como uma espécie de tema condutor do filme (não sei como se chama isso na linguagem técnica da sétima arte), mas não é dele que resulta o melhor da película. O que gostei mesmo foi um tema moral que está presente na bela (como sempre) atuação da Meryl Streep. Ela é uma madre superiora, obediente e exigente quanto ao cumprimento das regras da Ordem. Diante da suspeita que o pároco de sua igreja (Phil Hoffman) pode estar tendo alguma relação indevida com um dos seus coroinhas, ela resolve investigar, faz ameaças ao padre e termina por conseguir seu afastamento da igreja. A moralidade entra no roteiro por dois caminhos: primeiramente, através de algumas mentiras que ela precisou inventar para não ser punida pelo padre (que era seu superior). O problema moral maior, no entanto, aparece bem no final (e tem relação com o título): a personagem mostra que todo seu rigorismo moral vem de uma forte confiança na tese que suas escolhas são as escolhas de Deus, que aquilo que defende encontra amparo na vontade de Deus. A tensão pelo enfrentamento e, em certa medida, a soberba e orgulho (necessários, diria Maquiavel) cegos que ela mostra em seu tentativa de 'provar' o crime do padre são balançados pela dúvida: e se ela estiver enganada naquela situação particular? e se ela estiver enganada em geral, ou seja, se sua atitude de rigor no cumprimento dos deveres da ordem não seja propriamente a vontade de Deus? E se a moral de Deus for amorosa e doce, uma moral ambigua e que admite pequenos deslizes, mais aberta para seres imperfeitos como nós, como defende o padre? se essa segunda alternativa for verdadeira, ela errou e é essa dúvida que a atormenta. Uma moral heterônoma não é livre de dificuldades: mesmo tendo Deus, temos de decidir o que está de acordo com a vontade de Deus. Esse é um tema que quero voltar a tratar.

4 comentários:

Cesar Shu disse...

Pô Flávio, no final da postagem tu simplesmente autonomiza a moral heterônoma.

Tua conclusão é a mesma do Sartre na palestra famosa, O Existencialismo É um Humanismo: o crente escolhe no que quer crer. Sartre acrescentaria que ele, o crente, é o responsável pelo que escolhe, e poderíamos acrescentar que também é responsável pelas consequências.

E tua visão, se aplicada ao cristianismo, corrobora o que Stuart Mill diz sobre os fieis dessas religião: eles se comportam segundo o senso comum da sua época e lugar, não se comportam segundo a doutrina dos Evangelhos.

Mas mudando de assunto, há boas dicas de cinema na coluna do Andrew O'Hehir, na revista Salon. Por vezes as indicações dele acabam em canais mais alternativos da TV paga, mas também acabam no Google vídeos, no eMule, nos torrents, nos blogs etc.

Eros disse...

Um filme americano edificante que vi faz pouco tempo é Synecdoche, New York, roteiro e direção do Charlie Kaufman. Dá para perscrutar o filme sob vários guarda-chuvas filosóficos, sentido da vida, idealismo, realidade/aparência etc.

Flavio disse...

valeu amiguinhos pelas dicas. Ao César, em particular, gostaria de dizer que preciso pensar na sugestão sartreana e estudar mais ética cristã, mas foi realmente algo nessa direção que me ocorreu. Eu diria que minha pretensão não é autonomizar a moral vinda de fora, mas mostrar que, mesmo admitindo as regras da ética cristã, fica difícil saber, em muitas circunstâncias, quando nossas decisões concordam com as leis de Deus.

Luis Fernando disse...

Esse é um grande filme!, a cena final é de arrebentar.