domingo, 6 de junho de 2010

política



De todas as coisas detestáveis da política eleitoral, a mentira ou falsidade deve ser a maior delas. Quem foi que deu aos políticos e seus seguidores o direito de mentir tão vergonhosamente? e o que esperam encontrar por trás de tanta distorção da realidade? 

Se mentimos para alcançar algum objetivo que outros poderiam alcançar dizendo a verdade, então trapaçeamos. Se trapaçeamos, traímos a pureza do jogo e, sem pureza, não há mérito ou valor; apenas logro. 
Não posso me considerar vencedor se, numa corrida de 800 m, faço os primeiros 400 m de bicicleta. Seria mais glorioso dar apenas um passo com minhas próprias pernas!

9 comentários:

André HP disse...

Talvez não seja isso que eles querem.

Eros disse...

A esse respeito acho que concordo um pouco mais com o Frankfurt. O mais pernicioso na política não é a mentira, mas o bullshit, a treta, o falar merda sem parar, totalmente despreocupados com a falsidade ou a verdade, com a intenção única de velar por uma imagem. A mentira ainda apoia o valor da verdade, o bullshit não. O bullshit nos leva diretamente para uma forma de pensar em que não há mais a distinção entre realidade e aparência. E eu acho isso não só perigoso, mas ruim.

Flavio Williges disse...

Eros,

Em termos teóricos, se posso falar assim, eu concordo que a bobagem é mais perniciosa que a mentira. Mas, em termos práticos, não. O político que fala besteira não ilude e, supostamente, terá mais dificuldade para ganhar eleição. O Bush talvez seja um exemplo aqui. Mas o mentiroso não! O mentiroso diz coisas falsas para enganar as pessoas. E a mentira me parece uma falsificação da vida, da alma; nos apresentamos como outros, injustiçados ou perseguidos, quando na verdade temos as mãos sujas. Essa possibilidade realmente me incomoda mais que tudo. Não sei se vc concorda comigo?

Eros disse...

Oi Flávio,

Acho que no que diz respeito à estratégia, concordo contigo. A mentira é mais eficaz. Mas acho que em termos práticos, no geral, a bobagem também transfigura a alma, faz com que ela só cultive e só se volte à sua superfície. Também há aqui um apresentar-se como outro, ao lado, às vezes, de um apresentar-se como si mesmo, e lá no fundo uma indiferença total ao que você mesmo é.

Brunnus Reqqiem disse...

Oi Prof. Flávio, satisfações em vê-lo no meu blog :)
É, eu também me inclino para uma ‘filosofia espiritualista’. Mas uma filosofia arejada, singela, onde a sensibilidade da intuição consegue exercer seus dons, sem aquele reducionismo e prisão a pormenores que a filosofia racionista tem ou simplesmente é.
Me sinto muito pleno, depois que um livro ou uma aula de filosofia tenha tratado das questões existenciais, pois como nossa pessoa essencial é espiritual-existencial, esta nossa qualidade essencial está naturalmente inserida na busca pelos esclarecimentos, e desta forma, se correspondido, encontro-me preenchido. Não consigo pensar ou agir, antes disso, sentir, a filosofia dissociada de meu íntimo; é vertiginoso para mim, absorver tantos conceitos analíticos, lógicos, e toda sorte de enunciados, que tratam de tantas coisas, mas ao mesmo tempo não passam nem de raspão nas grandes inquietações humanas.

Brunnus Reqqiem disse...

Algo que me indigno é quando com o mesmo olhar curto e com o mesmo linguajar lógico-científico tentam falar do ser humano. Falam de experiência subjetiva, mas o leque aí tão pequeno, tão pueril, que não vejo na Filosofia da Mente nada de humano. Apenas de funcional ou sensorial.
Entendo por experiência subjetiva aquela vivência interior onde há um sujeito, não um mente. Há um pessoa, mais que uma consciência, ou como o Eu sendo um mero feixe de sensações, percepções, etc.; mas um centro auto-integrado, como sendo seu próprio plano de fundo.

Brunnus Reqqiem disse...

E experiência subjetiva não é só a qualia do vermelho, ou do p então q, e sei lá mais o que de simplista, mas ‘ [a] esperança [que] renasce nos corações [...] [em] momentos difíceis de sofrimento e melancolia, pois são graças que chegam, ajudando a libertar-se de erros cometidos, o amor, uma inquietação humana, a sensibilidade duma poesia, a graça interior de se ler um texto espiritulista e com isto mudar toda a existência, ou quando num campo de concentração a única forma de manter-se forte é se entregar a imagem da pessoa amada, e tantos exemplos comuns ou heróicos da vida humana.
Mais vale a experiência de ser humano do homem do campo em sua simplicidade tratanto os animais, que aqueles doutores que falam em inputs e outputs e nem sabem mais o que é a qualidade do humano que há em cada um.

Brunnus Reqqiem disse...

Bergson lá no início do séc. XX já assinalava que o psicologismo estudava os estados psicológicos separados, sem a pessoa de onde eles eram originários, do centro de onde emanavam; a filosofia da mente marca o mesmo passo, aborda os estados internos ou mentais também de forma dissociada. O ser-pessoa é discutido apenas na área linguistica, e na parte mental, como se fosse a mera experiência de uma cor. Se fossem ler Scheler e bons fenomenólogos, ou mesmo abrissem um pouquinho a sensibilidade interior, sentiriam algo muito diferente...
Na filosofia contemporânea que trata da alma (ou redutoramente, da mente), não vejo que as coisas se norteiam apenas em problemas fáceis ou dificeis da consciencia, como assinalou Chalmers, mas em um concepções homunculistas ou humanas do ser-homem.
É isto professor.

Flavio Williges disse...

Bruno,
Te entendo, te entendo inteiramente, acho que posso dizer. Na minha graduação tive pensamentos parecidos com os teus. Mas hoje, depois de anos de estudo, eu vejo as coisas de modo um pouco diferente. Acredito que todas as filosofias ou estilos de filosofia tem uma contribuição relevante para dar na tarefa de desvendar as brumas que envolvem nossa condição.
Por exemplo: algumas pessoas precisam de uma prova lógica para aceitar a existência de Deus; outras contemplam o fim de tarde ensolarado (Fernando Pessoa no Guardador de Rebanhos, p. e.) e não precisam de mais nada para crer. Existem diferenças de temperamento entre praticantes de filosofia que parecem recomendar a heterodoxia como a postura mais adequada para filosofia (não ser ortodoxo ou fechado numa única posição teórica, digamos- se não estou enganado, vc parece priorizar uma delas). Além disso, eu considero a filosofia de linhagem lógica ou analítica uma boa escola de disciplina do pensamento, especialmente quando trata-se da formação num curso de filosofia. é muito difícil exprimir nossos pensamentos de um modo claro e organizado. A tradição analítica me parece destacar esses aspectos como um parâmetro mínimo de exigência. Por isso, sempre recomendo que meus alunos sejam primeiro escolásticos ou aristotélicos e depois sartreanos ou deleuzianos. Eu não tenho preconceito algum contra tradições filosóficas; se tenho, é muito pequeno. O que estou querendo dizer, em outras palavras, é que filosofia dura é importante por duas razões: a) pois há gente que precisa desse tipo de filosofia e b) pois essa filosofia é útil para disciplinar o pensamento.
Não sei se ísso é tudo o que eu devia dizer, mas é o que me ocorre agora. Mas espero que possamos continuar conversando, naturalmente, sempre que possível. E a propósito: é sempre uma alegria ler uma mensagem longa e bem articulada de um aluno.
Abraço

Flavio