sábado, 9 de fevereiro de 2008

Porque deixei de falar sozinho


Por que deixei de falar sozinho

"Eu tinha o hábito de falar sozinho. Aprazia-me conversar comigo mesmo e, por isso, ficava horas a fio, trocando idéias com meus botões.
Nessa época eu era um homem que me compreendia perfeitamente. Empregava nas minhas autopalestra uma linguagem acessível e tinha o cuidado de não usar termos empolados, não só para não me tornar ridículo diante de mim mesmo, mas também para me poupar o trabalho de ir consultar o dicionário.
Às vezes, fazia-me perguntas desconcertantes como esta:
Por que será que há tanta gente idiota neste mundo?
E, como não sabia responder à minha própria interrogação, limitava-me a sorrir idiotamente.
Em outras ocasiões, sustentava discussões comigo mesmo, mantendo, porém sempre uma fraseologia elevada, como convém a uma pessoa de fino trato e esmeraa educação. Isso acontecia sempre que comprava um bilhete de loteria ou que tomava um bonde errado. Mas tudo acabava bem e eu continuava a manter as melhores relações comigo mesmo.

Um dia, porém, entrei satisfeito em casa. Acabava de adquirir um terno quadriculado e um parte de sapatos de jacaré, esperando obter, por essa forma, um formidável êxito social. Contemplei-me durante alguns segundos no espelho e não sei como deixei escapar a seguinte exclamação:

- Mas que cara cretino!

Ao ouvir esse insulto, atirado às minhas bochechas, senti subir-me o sangue às faces e retruquei com violência:

- Cretino é você, seu malcriado!

Foi a conta. A paciência humana, como a república portuguesa, também tem os seus limites. E os homens educados conseguem manter uma linha impecável, enquanto não lhes pisam os calos.

Dos desaforos em baixo calão, passei às vias-de-fato, agredindo-me e rasgando a roupa nova que ficou em petição de miséria. Não satisfeito, arranquei os sapatos e depois arremesei, com toda a força, os jacarés contra a minha imagem no espelho que se desfez em estilhaços.

Serenados os ânimos, verifiquei que eu estava com toda a razão. Inspirado por um natural sentimento de nobreza, próprio de um verdadeiro cavalheiro, estava, entretanto, disposto a me perdoar daquele insulto. Mas, ao mesmo tempo, não me ficava bem continuar a manter relações com um sujeito que me havia ofendido tão torpemente.

E, então, resolvi cortar todas as ligações de amizade que me dispensava e deixei automaticamente de falar comigo.

No fundo, não me desgosto e chego até a reconhecer que não sou, afinal, tão ruim como dizem os meus desafetos. Mas nâo quero saber mais de conversa comigo mesmo.

E isso agora já é uma questão de amor-próprio".

Aparício Torelly, O Barão de Itararé. Extraído do livro Barão de Itararé: meio século de humorismo de Sérgio Dillenburg. Edunisc. 2005.

Um comentário:

Tiago Enes disse...

Oi....
Passando só para fazer uma visitinha.
Achei o blog muito legal mesmo.
Muito interessante.
Parábens.
Continue Assim

Tenha um ótimo final de semana!