domingo, 7 de dezembro de 2014

Meus dias na Califórnia

Sonhos: Conhecer a Califórnia foi parte de um sonho antigo nascido, suponho, no tempo das minhas férias colegiais, quando passava (como muitos o fazem até hoje, creio), tardes inteiras assistindo filmes e perseguições policiais nas estradas da Costa do Pacífico ou Westerns (ou talvez tenha sido só um desejo extraviado por neve branca, pelos riachos e montanhas do Oregon, Alasca ou algum outro lugar desconhecido). O certo é que minha adolescência e o início da "idade da razão" foi  embalado pelos ritmos do rock, o jazz e blues; pelo Jim Morrison da minha velha camiseta rasgada, a Janis do Monterey Pop Festival (que assisti com o Clayton e o Mauro, na sala de vídeo da biblioteca da UFSM lá por 94), o Hendrix e todos os loucos das guitarras e festivais que pudermos imaginar.  No mundo da literatura e poesia, li Walt Whitman, o submundo da literatura de Bukowski, a história da geração beat, Melville e outras coisas mais modernas (como Philipe Roth e Jonathan Franzen). Mais recentemente tenho estudado alguma coisa de Emerson, Thoreau e James e tudo o que posso da exuberante tradição da filosofia analítica norte-americana (de Putnam, Cavell, Davidson e tantos outros). Nenhum homem letrado do nosso tempo pode, com justiça, se dizer alheio a essa rica e valiosa tradição cultural. Na verdade, sob qualquer ângulo que se avalie o universo das artes, humanidades e ciências,os USA são a terra de ícones inescapáveis, um lugar que o imã de toda mente curiosa irá apontar.
Alguém me falou, antes de deixar o Brasil, que eu voltaria diferente. Toda a viagem verdadeira é uma viagem para dentro de nós mesmos. Não creio que se possa descobrir um lugar como águias que roubam e estilhaçam a carne nova de suas vítimas. Uma viagem verdadeira nunca  é uma descoberta; se parece mais com um encontro. Emerson escreveu certa vez: "Aqueles que fizeram a Inglaterra, a Itália ou a Grécia veneráveis à imaginação, fizeram-no fixando-se avidamente onde viviam como a um eixo da terra. A alma não é nenhum viajante"? Ao menos posso dizer que "não saí mundo afora com a esperança de encontrar algo maior do que aquilo que já conhecia". Encontrar o norte da América foi, então, uma forma de descobrir a mim mesmo ou fazer qualquer coisa que possa ser descrita como próxima dessa experiência. E meu relato aqui deve ser bastante subjetivo, um amontoado de impressões recolhidas em não mais do que trinta dias, numa pequena cidade e universidade da California e em alguns passeios próximos por cidades maiores e montanhas. "Toda essa miscelânea que vou gratujando aqui não é mais que um registro dos ensaios de minha vida", disse Montaigne nos Ensaios. As coisas que escrevo aqui devem ser lidas nesse mesmo espírito. Considero  válido esse registro de impressões momentâneas, temperadas por meu entusiasmo e, agora, por uma certa melancolia, pois já se vão uns 7 meses desde minha volta.  
A verdade é que cheguei na "América" com o medo que acompanha a chegada de todos os latinos que cruzam a fronteira e a euforia de uma criança quando ganha um brinquedo novo. Provei o que pude e lamento não ter dado mais largas às minhas tentações. A parte mais rica e grata da minha visita foi não descobrir a América real; a América que existe ficou desconhecida. A América que conheci é alguma coisa como um estado de espírito coberto por bares com balcões de madeira e bancos estofados, por deliciosas tap beers e hamburgers (sim, os de lá são bem melhores que qualquer coisa que conheci no Brasil). Sendo mais preciso, quero dizer que um país não é o tipo de coisa que se conhece. É o tipo de coisa que se vivencia, uma fusão entre o mundo da nossa alma e dos nossos desejos e um mundo real, que não é exatamente real, pois não posso dizer que há aqui alguma mais coisa concreta do que uma vívida projeção. A vida às vezes se parece com ser passageiro de um ônibus que mostra paisagens novas e sonhos lúcidos....às vezes mais paisagens, outras vezes mais ação chata e lucidez. E eu embarquei num sonho com amigos queridos que ficarão para sempre comigo (Jônadas, Mitieli e Eduardo).

Eficiência e racionalidade: a outra face da América, que não é sonho, é um monumento à racionalidade, praticidade e organização. Imagino que o mundo ideal para um americano seja aquele em que ninguém precisará da ajuda de ninguém, em que todos serão auto-suficientes e independentes. Isso pode soar estranho para ouvidos brasileiros, acostumados com todo tipo de interdependência,  ligação, favores, contatos, mas faz um bocado de sentido. Basta ficar uns dias por lá para ver como perdemos tempo e dinheiro com coisas tolas e sem nenhuma utilidade. As máquinas para comprar refrigerantes, sucos, água e outras coisas estão por todas as partes. É possível abastecer o carro sem falar com ninguém. O sistema de pagamentos é incrivelmente eficiente. Sempre há uma forma simples de pagar e retirar dinheiro. Não há guardas ou vigias em  bibliotecas, supermercados. O atendimento não envolve  nenhum tipo de servilismo. As pessoas que atendem cumprem uma função e a fazem bem.
Todo a circulação de bens e necessidades cotidianas e do trabalho é baseado na confiança e correção das pessoas. Ninguém espera ser trapaceado ou acredita que será. Espera-se honestidade e, especialmente, se acredita e respeita as pessoas. Às vezes perguntei para vendedores se o produto x, que estava sendo vendido, era bom. Pelo menos uma três vezes me aconselharam a não comprar e quando não tinham o que procurava me orientavam a buscar noutra loja (sem tentar me vender algo similar). 
Em suma, não tive dificuldade para fazer nada daquilo que esperei fazer, em termos práticos. Acho que isso deveria acontecer em toda lugar. 

Civilidade: americanos são educados, corteses, atenciosos, especialmente quando não estão trabalhando. No trabalho, eles não são informais ou dispostos a conversar sem propósito definido.  Eles mantém a atenção focada nos seus compromissos. Deixam claro o que querem e dizem não, se for preciso. Temos uma forma vaga (eu, ao menos) de convidar pessoas, agendar encontros, trabalhar. "Aparece lá em casa", "nos falamos"(quando?) nada disso faz muito sentido entre os homens do norte, pensei. Um convite é um convite. Uma conversa é uma conversa. Um desejo é dito e uma contrariedade também.

Academia: Estive num Departamento pequeno, eram só 12 ou 14 professores. Todos eram especialistas em alguma coisa, que estudavam sem muita abertura para outros temas. Isso é uma coisa que não é muito comum entre nós. Eles estudam e escrevem sobre coisas específicas. What is your field? era a segunda ou terceira pergunta que ouvi por lá. A universidade americana é muito competitiva e descobrir um campo novo de estudos ou demonstrar alguma originalidade é essencial para a sobrevivência. Os alunos são estimulados a dar sua contribuição. Os alunos de pós-graduação (em parte por que trabalham como teaching assistents) tem uma sala no departamento (dividida com outro colega ou individual). Eles passam o dia na universidade, participam das discussões, pois estão trabalhando e apresentações e seminários são acompanhados por todos do Departamento.  A cultura do envolvimento, do trabalho e discussão aberta e cooperação é uma cultura fundamental, um requisito. A força das idéias e argumentos parece valer. Tudo é muito objetivo nas aulas e abordagens, mas não refratário à correção. As aulas frequentemente montam cenários de discussão e o professor assume que existem alternativas e que sua posição é aquela, mas que há outras e o aluno poderá conhecê-las. Mais de uma vez ouvi professores dizendo: tem essa teoria aqui, mas eu sustento essa. Há paisagens do pensamento e algumas são defendidas argumentativamente. Uma disciplina é, assim, muitas vezes, um percurso dentro de uma certa tradição de análise de um tema (em geral em torno de 5 ou 10 artigos seminais, que deram a direção do tema). Invariavelmente, o aluno que assiste uma disciplina tem um panorama da  discussão e pode localizar a si mesmo. Essa postura, bastante racional e objetiva, dá muito resultado na Universidade, eu acho. 

Isolamento linguístico: fui para os USA basicamente para aperfeiçoar meu domínio da língua. Na primeira semana eu não entendia quase nada do que me era dito. Pela primeira vez experimentei o isolamento linguístico; aprendi como a falta de comunicação aprisiona; como é difícil existir, ter um lugar no mundo, sem linguagem. E essa experiência invariavelmente me fez entender o quanto há de dependência na vida. A vida é alguma coisa que pede comunidade e perspectivas de amor, atenção, calor humano. Boa parte disso ganhamos trocando palavras. Não poder falar, ser ouvido ou entendido é como estar sem mundo, isolado, é uma forma de não-ser. E não falar nos ensina um bocado disso. 


Happiness:  o astral brasileiro diante da vida é nossa principal força (é uma força psíquica). É possível olhar, mesmo numa grande cidade, uma pessoa nervosa, carregando sua caixa de refrigerantes para vender; ver seu medo e desespero na dura batalha dos dias. Mas também é possível ver essa gravidade entrecortada por sorrisos amplos de alegria, de fé na vida e a certeza que ela pode ser leve, ainda que às vezes possa nos pedir demais. Essa felicidade não está aberta para a maioria dos americanos. A pobreza na América é vergonha.  Ser pobre para nós não é um defeito. Os pobres brasileiros, ainda que não sejam amados, não são cidadãos de segunda linha, como alguém que carrega consigo uma  chaga...ao menos entre a população comum. O pobre no Brasil é uma pessoa pobre, mas não menos que isso. Talvez essa diferença se deva à nossa humilde convicção de que a riqueza não é uma experiência de longo termo; afinal, o Brasil sempre flertou com a miséria, ela estava perto dias atrás. Nesse sentido, é sábio pensar que o pobre não é tão diferente de cada um. Ou talvez sejamos legítimos herdeiros da profecia cisplatina "Não é vergonha ser pobre; vergonha é roubar". 
O certo é que somos definitivamente um povo caloroso e feliz, mesmo em meio ao nosso sofrimento. O capitalismo tropical nos faz desejar os bens que a indústria americana cria, as vezes até matar para tê-los, numa das pontas dessa contradição que é nossa experiência. Mas definitivamente nós vivemos em paz com a falta de muita coisa e estamos prontos a abraçar irmão e irmã desprotegidos, ouvir, conversar, se apiedar e tornar seu drama menos triste, sem nenhuma rejeição ou desprezo profundo pelo seu eventual pelo fracasso pessoal. Achei os americanos bastante frios e fechados, embora eles gostem de conversar quanto estão no aeroporto ou em algum lugar sem nenhum tipo de tarefa séria. E os ricos também não parecem muito felizes. Eles são cerebrais...um pouco demais, talvez. 

Dinheiro: Tudo é pago. Ninguém espera receber nada gratuitamente. Mas o serviço é bom por toda parte. Americanos são considerados individualistas. Eles são, no sentido que estão bastante ocupados em seus projetos pessoais e conseguir sucesso profissional. Ao mesmo tempo, eles contribuem regularmente com o país, com suas comunidades, doam dinheiro para a universidade. As doações e preocupação com atividades de solidariedade são muito mais fortes e frequentes que no Brasil. As pessoas comuns planejam e atuam praticamente para minimizar o sofrimento e injustiça social. Gostam de ajudar a criar e dar oportunidades. Mas não tocam e não gostam de miseráveis, me pareceu. Nós tocamos, abraçamos, especialmente no Natal, mas fazemos, pessoalmente, pouca coisa efetiva para pôr fim à miséria. Quando um governo ameaça fazê-lo, parece para milhares que algo errado está em curso. 

O afeto: americanos são bastante reservados e parecem tensos ou, ao menos, não tão soltos e à vontade quanto nós. A neurose americana é controlada com as forças racionais da alma. A neurose brasileira é regulada com afeto. O estranho instinto de adaptação e sobrevivência num mundo hostil é lá muito  controlada pelo cérebro, sem buscar dependência, ligações, proximidades, desabafos, lamentações. Por isso, muitos americanos estouram na cabeça, tem ataques e atiram, como aconteceu em Santa Bárbara (na mesma época que estive em Davis). Brasileiros lidam com os medos da vida se abraçando na família, buscando conforto e às vezes alguma reclamação dentro de casa. Somos cheios de coração. 

Paisagens e sonhos futuros: quero voltar. Sou brasileiro. Estive em lugares lindos, com pessoas maravilhosas, mas em minha alma estava sozinho e meu coração estava sempre triste, esperando o calor que encontro nos braços de meus filhos e na bagunça da minha casa. Nada aqui foi vulgar ou triste, nada foi regular, como os outros dias da minha vida, mas um pedaço de mim estava faltando. Encontrei essa parte que faltava na volta. Aprendi que podemos ir muito longe, mas só existimos verdadeiramente no amor. 








2 comentários:

Eduardo Ruttke von Saltiel disse...

Ô Flávio, valeu pelo relato e pelas reflexões! E também pela ótima parceria que desenvolvemos lá! Ainda me lembro de cantares More than a feeling nas proximidades da Golden Gate com muito carinho!
Sinto falta de muitas coisas dos EUA. Um exemplo prosaico é a água que os restaurantes servem de boa, sem ser preciso pagar por isso... Será que não dava pra adotar esse sistema aqui no Brasil? Com quem que a gente precisa falar pra resolver esse problema?

Flavio Williges disse...

pois é, Eduardo. O que vivi com vocês vai ficar comigo para sempre. Acho que não tem como esquecer. Foi literalmente um sonho e, como já disse, adorei que vocês estavam nele. Quanto à água, acho que podemos começar conversando com os donos de bares que são nossos amigos. Vou falar com o Bira. Se um começa, os outros podem imitar.