
A Universidade é o lugar do saber, mas dentro dela se diz muita besteira e, de besteira em besteira, algumas viram, injustamente, verdade. Hoje em dia tornou-se comum, especialmente entre intectuais das humanidades, utilizar o adjetivo "cartesiano" como sinônimo de um pensamento filosófico dominado por uma atmosfera positivista, responsável pela compartimentalização do saber e outras desventuras do pensamento. Ouvi da boca de vários "doutores" bem formados esse tipo de acusação, como se nada além da expressão "cartesiano" fosse suficiente para condenar estratégias de análise e solução de problemas nessas áreas.
Eu, aqui no meu canto, devo dizer que quanto mais leio, mais me convenço do quão brutalmente enganosas são tais generalizações. Se não se pretende perder tempo conhecendo o sistema metafísico de Descartes, já seria profícuo se os acusadores de Descartes, esses magos dualistas especializados na rica sistemática de catalogação do bem e do mal, lêssem duas ou três páginas do tratado As paixões da Alma, pois tal leitura será mais do que suficiente para fazê-los reconhecer definitivamente que as coisas não são bem assim. Mas, como bem lembrava nosso filósofo, a vontade firme de conhecer o que é correto não é um bem fartamente distribuído no mercado humano.
"E, embora deva bastar aos que são por natureza um pouco mais lentos que, mesmo ignorando muitas coisas, possam ser sábios à sua medida, desde que retenham a vontade firme e constante de nada omitir que conduza ao conhecimento do que é correto e, além disso, de executar tudo o que julgarem correto, com o que se tornarão agradáveis no mais alto grau a Deus, no entanto, muito superiores são aqueles nos quais encontramos, juntamente com uma firmíssima vontade de agir, uma inteligência perspicassíssima e o máximo zelo em conhecer a verdade". (Carta Dedicatória a Princeza Elizabeth)